Dr. J.R. de Almeida
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Editora Priscila Gomes
A mesma muda de árvore, plantada com o mesmo cuidado, pode seguir trajetórias completamente diferentes. Em uma paisagem conectada, sua área de regeneração pode recuperar rapidamente parte significativa da biomassa e do carbono característicos de uma floresta madura. Em uma paisagem altamente fragmentada e isolada, o mesmo processo pode levar muitas décadas adicionais — em alguns cenários, mais de dois séculos.
Essa diferença, que durante muito tempo poderia parecer apenas uma hipótese ecológica, ganhou uma dimensão quantitativa impressionante com um estudo publicado em 2026 por Thais M. Rosan e colaboradores na revista Communications Earth & Environment. Os pesquisadores analisaram a acumulação de carbono acima do solo em florestas secundárias da Mata Atlântica brasileira e encontraram uma forte relação entre a conectividade da paisagem e a velocidade de recuperação.
O resultado é especialmente relevante para o debate sobre restauração: em paisagens com alta conectividade florestal, as florestas secundárias poderiam alcançar cerca de 95% do estoque de carbono acima do solo observado em florestas maduras em aproximadamente 41 a 47 anos, dependendo da região analisada. Em paisagens de conectividade muito baixa, o mesmo limiar poderia exigir mais de 200 anos em algumas regiões.
A diferença não está simplesmente na muda.
Está na paisagem que existe ao redor dela.
Quando a floresta ao redor ajuda a floresta que está voltando
A conectividade significa, de maneira simplificada, o grau de continuidade ou ligação entre áreas florestais dentro da paisagem. Fragmentos próximos e conectados permitem maior circulação de organismos e favorecem a manutenção de processos ecológicos que podem acelerar a regeneração.
Uma floresta secundária inserida em uma paisagem conectada não começa sua recuperação do zero.
Ela está próxima de fontes de sementes, de áreas de habitat, de populações animais e de outros fragmentos florestais que podem contribuir para a recolonização.
A paisagem funciona como uma espécie de infraestrutura ecológica da regeneração.
É como se a floresta em recuperação tivesse acesso a uma rede de abastecimento biológico: sementes chegam, animais circulam, espécies colonizam novos espaços e processos ecológicos conseguem se restabelecer.
Quando essa rede é rompida, a recuperação pode desacelerar drasticamente.
O efeito aparece nos números
O estudo de Rosan e colaboradores estimou que, nos primeiros 20 anos de regeneração, a taxa de acumulação de carbono foi 43% a 69% menor quando se passa de paisagens altamente conectadas para paisagens de conectividade muito baixa, dependendo da região da Mata Atlântica analisada. Em uma das regiões estudadas — Oeste e Litoral — florestas secundárias em paisagens altamente conectadas acumularam carbono a uma taxa mais de três vezes superior à observada em áreas de conectividade muito baixa.
Os pesquisadores encontraram ainda diferenças expressivas no tempo estimado para alcançar 95% do estoque de carbono acima do solo das florestas maduras.
No Nordeste, a estimativa foi de aproximadamente 47 anos em áreas de alta conectividade, contra 191 anos em paisagens de baixa conectividade.
No Sudeste, a diferença foi ainda maior: cerca de 41 anos em alta conectividade contra mais de 200 anos em baixa conectividade.
Na região Oeste e Litoral, novamente, a estimativa foi de aproximadamente 41 anos para alta conectividade e mais de 200 anos para baixa conectividade.
Esses números não significam que toda floresta conectada ficará madura em 41 anos ou que toda floresta isolada necessariamente precisará de 200 anos. São estimativas baseadas nos modelos e nas condições analisadas pelo estudo, especificamente para a recuperação do estoque de carbono acima do solo até 95% do valor de referência das florestas maduras.
E essa distinção é fundamental.
Carbono não é sinônimo de floresta madura
Existe outra cautela importante.
Recuperar 95% do estoque de carbono de uma floresta madura não significa recuperar, no mesmo período, 95% de toda a biodiversidade, estrutura ou complexidade ecológica de uma floresta antiga.
Uma floresta pode acumular carbono relativamente rápido e ainda apresentar diferenças importantes em composição de espécies, árvores de grande porte, cavidades, estrutura vertical, fauna e interações ecológicas.
O próprio estudo ressalta que florestas secundárias podem levar mais tempo para alcançar características associadas às florestas maduras, incluindo aspectos da biodiversidade.
Por isso, os 41, 47 ou mais de 200 anos devem ser compreendidos como trajetórias de recuperação do carbono, e não como um relógio universal da formação de uma floresta.
Ainda assim, a mensagem ecológica é poderosa.
A restauração começa antes do plantio
Se a conectividade altera a velocidade de recuperação, então o planejamento da restauração não pode começar apenas no viveiro.
Ele precisa começar no mapa.
Antes de decidir quantas mudas plantar, é necessário identificar onde estão os fragmentos remanescentes, quais áreas podem ser conectadas, onde existem fontes de sementes, quais regiões apresentam maior potencial de regeneração natural e quais intervenções podem reduzir o isolamento dos fragmentos.
Em determinadas situações, restaurar uma faixa estratégica entre dois fragmentos pode produzir benefícios muito superiores aos de distribuir a mesma quantidade de árvores aleatoriamente pela paisagem.
A lógica muda.
A pergunta deixa de ser apenas:
“Quantas árvores vamos plantar?”
E passa a ser:
“Onde essas árvores podem ajudar a reconstruir uma paisagem funcional?”
Uma nova maneira de pensar as metas
Essa descoberta possui implicações importantes para as grandes metas brasileiras de restauração.
Se duas áreas com o mesmo tamanho podem apresentar velocidades de recuperação tão diferentes, então contabilizar apenas hectares restaurados é insuficiente para avaliar todo o potencial climático e ecológico de uma política de restauração.
O hectare importa.
Mas sua posição no território também importa.
Uma área restaurada pode conectar fragmentos, reduzir efeitos de borda, ampliar habitats e facilitar a circulação de espécies. Outra, mesmo com a mesma quantidade de árvores, pode permanecer isolada durante décadas.
O estudo de Rosan e colaboradores reforça justamente essa necessidade de incorporar a conectividade ao planejamento da restauração. Os autores concluem que aumentar a conectividade por meio de restauração direcionada, ao mesmo tempo em que se protegem florestas maduras e secundárias, pode ampliar os benefícios climáticos e ecológicos da recuperação florestal.
A grande lição talvez seja simples:
uma árvore não cresce sozinha.
Ela cresce dentro de uma paisagem.
E a paisagem pode determinar se aquela muda estará apenas sobrevivendo em uma área verde isolada ou participando, ao longo das décadas, da reconstrução de uma floresta funcional.
É por isso que a restauração do futuro precisará ser cada vez menos uma questão de onde cabem mudas e cada vez mais uma questão de onde a floresta pode voltar a se conectar.
Porque, quando se pensa em décadas ou séculos, escolher o lugar certo para restaurar pode ser tão importante quanto escolher a árvore certa para plantar.

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