segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Por que o manguezal de Aracaju vale mais do que se imagina?

                                                       Dr. J.R. de Almeida 

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes




Quando alguém olha para um manguezal, pode enxergar apenas lama, raízes expostas, água escura e caranguejos.

Mas essa percepção esconde uma realidade econômica e ecológica muito maior.

Mangue não é apenas habitat para caranguejo. É infraestrutura natural.

E, ao contrário de uma obra convencional, essa infraestrutura trabalha continuamente, sem férias, sem combustível e sem precisar ser acionada por um botão.

Ela filtra, armazena, protege, produz e conecta.

Um sistema natural que ajuda a melhorar a qualidade da água

Manguezais conseguem reter sedimentos e participar de processos biogeoquímicos que transformam e armazenam nutrientes e matéria orgânica.

Isso não significa que um manguezal possa substituir uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), nem que seja correto lançar esgoto nele porque “a natureza dá conta”.

É justamente o contrário.

Manguezal não é estação de tratamento de esgoto.

Sua capacidade ecológica de retenção e transformação de determinados contaminantes possui limites. Quando a carga de poluentes ultrapassa a capacidade de assimilação do sistema, o que era uma função ecológica pode transformar-se em degradação ambiental.

Por isso, qualquer tentativa de atribuir um valor econômico a essa função precisa considerar as características do ambiente, a carga recebida, a qualidade da água, a área envolvida e o serviço ecológico efetivamente prestado.

O valor de um hectare de manguezal não é uma cifra universal.

É uma função do território.

Uma barreira natural em uma cidade costeira

Aracaju está inserida em um território fortemente influenciado pela dinâmica dos rios, das marés e dos ambientes estuarinos.

Nesse contexto, manguezais e áreas úmidas podem desempenhar funções importantes na dinâmica hidrológica e costeira, ajudando a dissipar energia, reter sedimentos e oferecer espaço para a movimentação da água.

Mas é preciso compreender corretamente essa função.

O manguezal não é uma “muralha” capaz de impedir qualquer enchente.

Ele é parte de um sistema natural de proteção, cuja eficiência depende da configuração da costa, da hidrologia, da topografia, da extensão do manguezal, da conexão com rios e canais e das características dos eventos extremos.

Quando essas áreas são aterradas, fragmentadas ou ocupadas, a cidade perde parte dessa infraestrutura natural.

E aquilo que antes era realizado gratuitamente pelo ecossistema pode precisar ser parcialmente substituído por obras de engenharia.

Carbono azul: o serviço que permanece escondido no solo

Existe ainda uma função que ganhou enorme importância nas discussões climáticas: o chamado carbono azul.

Manguezais armazenam carbono não apenas na vegetação acima do solo, mas também em seus solos ricos em matéria orgânica.

Em determinadas condições, esses estoques podem ser muito elevados quando comparados a outros ecossistemas costeiros e terrestres.

É por isso que a destruição de um manguezal pode ter consequências climáticas que vão muito além da perda da vegetação visível.

Quando o solo é drenado, revolvido ou exposto após a destruição do manguezal, parte do carbono armazenado pode ser liberada para a atmosfera.

Mas números como “um hectare destruído equivale às emissões de 300 carros durante um ano” não devem ser tratados como uma constante universal.

O resultado depende do estoque de carbono daquele manguezal, da profundidade do solo considerada, do grau de degradação e do método utilizado para converter o carbono perdido em equivalente de emissões.

A mensagem científica é mais importante do que a cifra isolada: manguezais podem armazenar grandes quantidades de carbono, especialmente no solo, e sua degradação pode transformar esse estoque em uma fonte potencial de emissões.

Um berçário que sustenta a pesca

Existe ainda uma função que pode ser percebida diretamente pela população: a produção de vida.

Manguezais oferecem abrigo, alimento e áreas de desenvolvimento para diferentes organismos aquáticos. Muitos peixes, crustáceos e outros animais utilizam ambientes estuarinos e manguezais em alguma etapa de seus ciclos de vida.

Isso significa que existe uma ligação entre a conservação do manguezal e a produtividade pesqueira.

Mas também aqui é necessário cuidado com números absolutos.

A afirmação de que “80% dos peixes e camarões capturados pelo pescador aracajuano nascem no mangue” exigiria uma fonte específica, definição das espécies consideradas e delimitação da área de pesca.

O princípio ecológico, entretanto, é sólido:

degradar o habitat de reprodução, alimentação ou desenvolvimento de espécies pode comprometer os estoques pesqueiros e, consequentemente, afetar comunidades que dependem desses recursos.

O manguezal, portanto, não produz apenas biodiversidade.

Pode produzir alimento, renda e segurança econômica para populações humanas.

Quando o esgoto entra, a cadeia inteira pode ser afetada

É por isso que o lançamento de esgoto no manguezal não deve ser interpretado simplesmente como um problema de água suja.

Existe uma cadeia de consequências potenciais:

esgoto → alteração da qualidade da água → mudanças nas condições físico-químicas → impactos sobre organismos → alteração das relações ecológicas → comprometimento de habitats → possível redução de serviços ecossistêmicos.

A intensidade dessa cadeia depende da carga lançada, da frequência, do volume, das características do efluente, da capacidade de renovação da água e das condições ambientais locais.

Mas o princípio é fundamental:

quando contaminamos o manguezal, não estamos apenas sujando a água. Estamos pressionando um sistema ecológico inteiro.

E esse sistema presta serviços que seriam extremamente caros para a sociedade reproduzir artificialmente.

Quanto vale um manguezal?

Essa talvez seja a pergunta mais provocadora.

Quanto custaria construir estruturas capazes de substituir integralmente todas as funções desempenhadas por um hectare de manguezal?

Uma estação de tratamento para substituir processos naturais de retenção e transformação de determinados contaminantes.

Obras de drenagem e proteção costeira para substituir parte das funções hidrológicas.

Infraestrutura para compensar a perda de habitats utilizados por espécies de interesse pesqueiro.

Programas de restauração para recuperar vegetação e solo.

Medidas para recuperar carbono perdido.

E, acima de tudo, o custo de tentar reconstruir um ecossistema que não funciona como uma máquina industrial, mas como uma rede complexa de interações biológicas.

É justamente por isso que a valoração ambiental não deve ser confundida com a tentativa de estabelecer um simples preço para a natureza.

O objetivo é demonstrar, em termos ecológicos e econômicos, aquilo que normalmente permanece invisível:

preservar um manguezal também é uma forma de investimento em infraestrutura, segurança, biodiversidade, clima e qualidade de vida.

Quando essa infraestrutura natural é destruída, a conta não desaparece.

Ela apenas muda de endereço.

Sai do ecossistema e chega à sociedade.

E talvez essa seja a maior ironia de todas: o manguezal que muitas vezes é tratado como “terreno sem valor” pode estar prestando gratuitamente serviços que custariam milhões para serem parcialmente substituídos por obras humanas.

Por isso, antes de perguntar quanto custa preservar um hectare de mangue, talvez seja necessário fazer a pergunta inversa:

quanto custará para Aracaju perder mais um hectare?

O que foi encontrado em campo: quando o esgoto chega ao manguezal

                                                         Dr. J.R. de Almeida 

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes




No projeto “Avaliação de Impactos, Passivos e Danos Ambientais na Região de Aracaju”, publicado sob o DOI 10.22533/at.ed.9212322124, a análise deixa o campo das hipóteses e entra no território da evidência ambiental.

O trabalho documentou uma realidade que costuma permanecer escondida atrás da paisagem urbana: a precariedade do saneamento e a ocupação irregular de áreas ambientalmente sensíveis podem transformar os manguezais da Grande Aracaju em receptores de impactos que deveriam ser evitados na origem.

O que foi encontrado em campo?

Não foi uma impressão. Foram constatações ambientais registradas durante o trabalho.

Entre os problemas identificados estavam ocupações irregulares sobre áreas de manguezal nos municípios de Aracaju, Barra dos Coqueiros, São Cristóvão e Nossa Senhora do Socorro, além de situações associadas ao lançamento inadequado de efluentes domésticos e à deficiência da infraestrutura de saneamento.

O resultado é particularmente preocupante porque esses ambientes não são áreas sem função.

São ecossistemas estuarinos que oferecem abrigo, alimentação e áreas de reprodução ou desenvolvimento para diversas espécies. O manguezal funciona como zona de transição entre ambientes terrestres e aquáticos e possui importância ecológica, econômica e social para as comunidades que dependem direta ou indiretamente desses sistemas.

Quando uma ocupação irregular avança sobre esse espaço, portanto, não ocorre apenas uma mudança no uso do solo.

Uma função ecológica é perdida ou comprometida.

Onde antes existiam condições para o desenvolvimento de organismos associados ao manguezal, passam a existir edificações, vias, aterros, resíduos e, em determinadas situações, moradias sem infraestrutura sanitária adequada.

O problema se agrava quando o esgoto doméstico não recebe tratamento adequado.

Quando o esgoto deixa de ser um problema doméstico e se transforma em dano ambiental

O saneamento não termina quando o efluente deixa uma residência.

A partir desse ponto começa uma cadeia ambiental que precisa ser acompanhada: coleta, transporte, tratamento e disposição final.

Quando qualquer uma dessas etapas falha, o problema pode ser transferido para rios, canais, estuários, áreas úmidas e manguezais.

O lançamento de esgoto in natura introduz matéria orgânica, nutrientes, microrganismos e outros contaminantes no ambiente receptor. Dependendo das características do lançamento e da capacidade de assimilação do sistema, isso pode provocar alterações na qualidade da água, redução do oxigênio dissolvido, enriquecimento excessivo por nutrientes e impactos sobre comunidades aquáticas.

E existe uma consequência que merece atenção especial:

o manguezal passa a receber aquilo que a cidade não conseguiu tratar.

Nesse cenário, o ecossistema deixa de ser apenas vítima de uma ocupação física e passa também a funcionar como receptor involuntário de uma deficiência de infraestrutura urbana.

A questão não é simplesmente ambiental.

É uma questão de planejamento urbano, saneamento, saúde pública, fiscalização e gestão territorial.

A cidade cresce, mas a infraestrutura não acompanha

Um dos problemas mais difíceis de enfrentar é a diferença entre velocidade de ocupação urbana e capacidade de implantação da infraestrutura necessária.

Uma residência é construída rapidamente.

Um loteamento pode transformar uma paisagem em poucos anos.

Uma área de manguezal pode ser aterrada em um intervalo relativamente curto.

Mas redes de coleta, estações elevatórias, estações de tratamento, sistemas de macrodrenagem e estruturas de fiscalização exigem planejamento, recursos financeiros, licenciamento e manutenção contínua.

Quando o crescimento urbano ocorre antes da infraestrutura, o ambiente natural acaba absorvendo parte do custo.

O rio recebe.

O manguezal recebe.

A área úmida recebe.

A população recebe os impactos.

E, posteriormente, o poder público precisa investir para tentar recuperar aquilo que poderia ter sido protegido preventivamente.

O problema começa também na percepção

Existe ainda um problema menos visível, mas igualmente importante: a forma como a sociedade enxerga o manguezal.

Durante muito tempo, ambientes úmidos e áreas de mangue foram tratados como espaços improdutivos, insalubres ou sem valor econômico imediato.

Quando um manguezal é percebido como “mato”, “lama” ou “terreno baldio”, sua ocupação parece menos grave.

Mas essa percepção está ecologicamente equivocada.

O manguezal não é um vazio entre a cidade e a água.

É um ecossistema.

Possui estrutura, biodiversidade, dinâmica hidrológica, ciclos biogeoquímicos e funções ambientais próprias.

E, no ordenamento jurídico brasileiro, determinadas áreas de manguezal estão protegidas como Áreas de Preservação Permanente (APP), justamente em razão de sua relevância ambiental.

A transformação de uma área protegida em espaço residencial, depósito de resíduos ou receptor de esgoto não representa apenas uma mudança estética na paisagem.

Pode representar supressão de vegetação, alteração do solo, modificação da drenagem, perda de habitat e comprometimento de funções ecológicas, dependendo das características e da extensão da intervenção.

O passivo ambiental que fica escondido

Talvez a parte mais importante dessa discussão esteja justamente naquilo que não aparece imediatamente.

Uma ocupação irregular pode parecer pequena quando observada isoladamente.

Um lançamento de esgoto pode parecer insignificante quando analisado apenas em um ponto.

Um aterro pode parecer apenas mais uma alteração no território.

Mas impactos ambientais não precisam ser grandes individualmente para produzir consequências relevantes quando se acumulam.

É o chamado efeito cumulativo.

Uma ocupação.

Depois outra.

Mais uma.

Um lançamento.

Outro lançamento.

Um canal alterado.

Uma área aterrada.

Uma margem ocupada.

Gradualmente, o sistema ambiental perde capacidade de desempenhar suas funções.

É nesse momento que o conceito de passivo ambiental ganha importância.

O passivo não corresponde apenas àquilo que está visível hoje. Ele representa também o conjunto de obrigações, impactos acumulados e necessidades de recuperação decorrentes de alterações ambientais que permanecem no território.

E esse passivo pode ser tecnicamente investigado.

De constatação a perícia: o dano precisa ser dimensionado

A existência de degradação ambiental é apenas o ponto de partida.

Uma avaliação ambiental tecnicamente robusta precisa responder perguntas mais difíceis:

Qual era a condição ambiental original?

Qual área foi afetada?

Qual foi o agente causador da alteração?

Quais funções ecológicas foram comprometidas?

O impacto é reversível?

Quanto tempo seria necessário para a recuperação?

Quais medidas de restauração são tecnicamente viáveis?

Qual é o custo dessa recuperação?

E, quando a recuperação integral não é possível, surge uma questão ainda mais complexa:

como dimensionar a compensação pelo dano que não pode ser simplesmente desfeito?

É nesse ponto que avaliação de impacto, perícia ambiental, recuperação de áreas degradadas e valoração de danos ambientais deixam de ser conceitos abstratos.

Eles se transformam em instrumentos para tornar mensurável aquilo que durante muito tempo foi tratado apenas como “problema ambiental”.

O manguezal está apresentando a conta

O que o trabalho realizado na região de Aracaju evidencia é que a degradação do manguezal não pode ser analisada de maneira isolada.

Existe uma cadeia de relações:

ocupação irregular → ausência ou deficiência de saneamento → lançamento inadequado de efluentes → degradação da qualidade ambiental → perda de funções ecológicas → aumento do passivo ambiental.

E essa cadeia tem um ponto em comum: a cidade transfere para o ambiente um custo que deveria ser administrado pelo planejamento e pela infraestrutura urbana.

O manguezal não escolheu receber o esgoto.

Não escolheu ser aterrado.

Não escolheu receber resíduos.

Não escolheu ser transformado em área residencial.

Ele simplesmente passou a absorver as consequências de decisões humanas.

Por isso, a discussão sobre Aracaju não deveria começar apenas quando acontece uma enchente, aparece um mau cheiro ou surge uma denúncia de ocupação irregular.

A pergunta precisa ser feita antes:

quanto da infraestrutura natural da cidade ainda estamos dispostos a perder antes de reconhecer que ela também precisa ser protegida?

Porque, quando o manguezal desaparece, não desaparece apenas uma paisagem.

Desaparece parte da capacidade natural do território de funcionar.

E recuperar essa capacidade depois pode custar muito mais do que preservá-la agora.

Aracaju está degradando um de seus principais escudos naturais contra enchentes — e o custo ambiental pode ser calculado

                                                         Dr. J.R. de Almeida 

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes



Você sabia que parte da história urbana de Aracaju foi construída justamente sobre áreas de manguezal e planícies naturalmente inundáveis? E que, décadas depois, a cidade ainda enfrenta problemas associados à ocupação dessas áreas, à deficiência de drenagem e ao lançamento irregular de esgoto?

A pergunta parece ambiental, mas é também urbana, econômica, sanitária e jurídica.

Porque quando um manguezal é aterrado, ocupado, fragmentado ou degradado, não desaparece apenas uma área de vegetação. Desaparecem, junto com ela, funções ecológicas que ajudam a controlar fluxos de água, reter sedimentos, sustentar a biodiversidade, armazenar carbono e proteger áreas costeiras e estuarinas.

Em uma cidade como Aracaju, cuja formação territorial está profundamente relacionada a ambientes costeiros e fluviomarinhos, essa discussão ganha uma dimensão ainda maior.

Documentos oficiais do município registram que a expansão urbana histórica avançou sobre manguezais e outras planícies inundáveis, inclusive por meio de aterros. O mesmo diagnóstico aponta que muitos desses ambientes foram progressivamente substituídos pela urbanização e que remanescentes de manguezal permanecem associados a rios como Sergipe, do Sal e Poxim.

O problema é que a natureza não deixa de cumprir suas funções apenas porque a cidade decidiu ocupar o território.

O manguezal não é um terreno vazio

Uma das maiores dificuldades da gestão urbana está em compreender que áreas alagáveis, manguezais, lagoas e planícies de inundação não são necessariamente espaços “sem utilização”.

Do ponto de vista ecológico, são sistemas que desempenham funções.

O manguezal participa da retenção e transformação de matéria orgânica, oferece habitat para inúmeras espécies, contribui para a estabilidade dos sedimentos e funciona como parte de um sistema costeiro capaz de absorver e redistribuir fluxos de água.

Em determinados contextos, esses ambientes também contribuem para reduzir a exposição de áreas urbanizadas aos efeitos de eventos extremos.

Por isso, substituir uma área natural por aterro, concreto, ruas e edificações não significa simplesmente trocar uma paisagem por outra.

Significa substituir funções ecológicas por infraestrutura construída.

E infraestrutura construída precisa ser dimensionada, mantida e paga.

A vegetação e os sistemas naturais, por outro lado, prestam determinados serviços ecossistêmicos continuamente — sem apresentar uma conta mensal para a sociedade.

Quando o manguezal é substituído, a água precisa ir para algum lugar

Essa talvez seja uma das questões mais importantes para compreender os alagamentos urbanos.

Quando uma superfície natural é aterrada ou impermeabilizada, a dinâmica da água muda. O solo perde capacidade de infiltração e armazenamento; a água da chuva passa a escoar mais rapidamente; canais, galerias e estruturas de drenagem recebem volumes maiores em intervalos menores.

Se a infraestrutura urbana não acompanha essa transformação, surgem pontos de estrangulamento.

Em fevereiro de 2026, por exemplo, o Ministério Público de Sergipe ajuizou uma ação civil pública relacionada a alagamentos crônicos no Jardim Centenário. Segundo a apuração apresentada pelo MPSE, uma intervenção viária teria criado uma barreira física ao escoamento, reduzindo a capacidade hidráulica de um canal. A perícia também identificou situações em que águas de inundação se misturavam a efluentes domésticos devido a lançamentos irregulares de esgoto no sistema de drenagem.

Esse caso revela uma conexão que muitas vezes passa despercebida:

drenagem urbana, saneamento e conservação ambiental fazem parte do mesmo problema.

Não são três assuntos independentes.

O esgoto transforma um problema hidráulico em problema sanitário

Quando águas pluviais e esgoto se misturam, o risco deixa de ser apenas patrimonial.

A água que invade ruas, terrenos e residências pode carregar contaminantes microbiológicos e químicos, aumentando a exposição da população a riscos sanitários.

Além disso, o lançamento inadequado de efluentes em ambientes estuarinos pode alterar a qualidade da água e aumentar a pressão sobre organismos que dependem daquele sistema.

Um estudo publicado na Revista Internacional de Ciências analisou justamente a relação entre expansão urbana, infraestrutura precária, despejo de esgoto e degradação de manguezais na região de Aracaju, apontando a necessidade de medidas preventivas e de melhoria da infraestrutura sanitária.

O problema, portanto, não pode ser reduzido à pergunta “onde está o esgoto?”.

É preciso perguntar:

para onde está indo a água da chuva?

para onde está indo o esgoto?

quais áreas naturais foram ocupadas para permitir a expansão urbana?

quais funções ambientais foram perdidas nesse processo?

E, principalmente:

quanto custa substituir essas funções por obras de engenharia?

Aracaju e a pressão sobre áreas ambientalmente sensíveis

A preocupação não é apenas histórica.

Em abril de 2024, uma fiscalização conjunta do MPSE e do MPF identificou, na Zona de Expansão de Aracaju, edificações em áreas de preservação permanente, incluindo manguezais e margens de rios, além de problemas relacionados à drenagem, falta de saneamento e destruição de lagoas naturais. Os órgãos públicos também apontaram pressão crescente da expansão imobiliária sobre uma região ambientalmente sensível.

Em maio de 2026, o MPF voltou a tratar do problema ao recomendar a suspensão de determinadas licenças e obras de edifícios com mais de quatro pavimentos na Zona de Expansão, condicionando novos empreendimentos à conclusão de obras de esgotamento sanitário e macrodrenagem e à demonstração de viabilidade ecológica. O órgão também apontou riscos relacionados ao aterramento de áreas úmidas, impactos cumulativos e alagamentos.

Isso mostra que a questão não é simplesmente “preservar árvores”.

É decidir qual cidade pode ser construída, onde pode ser construída e quais limites ambientais precisam ser respeitados para que a expansão urbana não aumente a vulnerabilidade da própria população.

O dano ambiental pode ser transformado em números

É aqui que entra a avaliação de impacto e a perícia ambiental.

Um dano ambiental não precisa permanecer restrito à descrição de que determinado manguezal foi “degradado”.

É possível investigar tecnicamente a extensão da área afetada, o grau de alteração, a perda de funções ecológicas, a duração do impacto, a possibilidade de recuperação e os custos necessários para restaurar o ambiente.

Dependendo do caso, também podem ser considerados os chamados serviços ecossistêmicos perdidos.

Quanto custaria substituir artificialmente a função de retenção de água desempenhada por uma área natural?

Quanto custaria restaurar uma área de manguezal degradada?

Quanto custaria recuperar a qualidade ambiental de um corpo hídrico contaminado?

Quanto seria necessário investir em infraestrutura para compensar funções naturais que foram eliminadas?

E quanto a sociedade deixa de ganhar enquanto aquele ecossistema permanece degradado?

Essas perguntas formam a base de uma discussão cada vez mais importante na perícia e na gestão ambiental: a valoração do dano ambiental.

Valorar não significa colocar um “preço na natureza” como se um ecossistema pudesse ser reduzido a uma mercadoria.

Significa criar parâmetros técnicos e econômicos capazes de dimensionar a extensão da perda e orientar reparação, compensação, responsabilização e tomada de decisão.

A conta que aparece depois da destruição

Existe uma lógica recorrente na expansão urbana: primeiro elimina-se a área natural; depois, quando surgem os problemas, busca-se construir a infraestrutura necessária para substituir parcialmente aquilo que foi perdido.

A equação pode se tornar extremamente cara.

Uma área úmida é aterrada.

A água perde espaço.

O escoamento aumenta.

A drenagem precisa ser ampliada.

O sistema de saneamento passa a receber maior pressão.

Os alagamentos aumentam em determinados pontos.

A população sofre prejuízos.

O poder público precisa investir em obras.

E, posteriormente, pode surgir a necessidade de recuperar o próprio ambiente que anteriormente foi eliminado.

É uma espécie de dupla conta ambiental: paga-se pela destruição e depois paga-se novamente para tentar corrigir suas consequências.

Isso não significa que todo alagamento em Aracaju seja causado pela destruição de manguezais. Eventos extremos de chuva, maré, ocupação urbana, impermeabilização, capacidade e manutenção da drenagem, topografia, alterações em canais e outros fatores podem atuar simultaneamente.

É justamente por isso que a análise precisa ser técnica.

O que uma perícia ambiental deveria perguntar?

Diante de um dano em área de manguezal, não basta registrar fotograficamente a degradação.

Uma avaliação ambiental robusta precisa investigar a situação anterior e posterior à intervenção, delimitar espacialmente o dano, identificar os agentes e mecanismos de degradação, avaliar a alteração das funções ecológicas e verificar a possibilidade de recuperação.

Também é necessário estabelecer uma linha de base.

Como era aquela área antes da intervenção?

Qual era sua cobertura vegetal?

Qual era sua conexão hidrológica?

Que espécies estavam presentes?

Qual era sua função no sistema estuarino?

O que mudou depois da ocupação?

Houve aterro?

Houve lançamento de esgoto?

Houve supressão vegetal?

Houve alteração do fluxo de água?

Houve impermeabilização?

Houve ocupação de área protegida?

Sem essas respostas, a discussão sobre o dano corre o risco de permanecer apenas no campo da opinião.

Com dados, mapas, imagens históricas, análises laboratoriais, levantamentos de campo, modelagem hidrológica e avaliação ecológica, a degradação pode ser transformada em evidência técnica.

O manguezal não é apenas paisagem

Talvez seja essa a mudança de percepção mais importante.

Um manguezal visto da janela pode parecer apenas uma área verde ou uma faixa de vegetação entre a cidade e a água.

Ecologicamente, porém, é muito mais do que isso.

É habitat.

É berçário para espécies.

É componente de um sistema estuarino.

É armazenador de carbono.

É parte da dinâmica sedimentar.

É espaço de conexão entre ambientes terrestres e aquáticos.

E, dependendo das condições locais, é também parte da infraestrutura natural que contribui para reduzir determinados riscos costeiros e hidrológicos.

Quando essa infraestrutura natural é destruída, a cidade precisa encontrar outra maneira de cumprir parte dessas funções.

E a alternativa costuma ser cara.

Muito cara.

A verdadeira pergunta para Aracaju

A questão ambiental de Aracaju não deveria ser apresentada como uma oposição simplista entre desenvolvimento e preservação.

A pergunta mais inteligente é outra:

que modelo de desenvolvimento permite que a cidade cresça sem destruir justamente os sistemas naturais que ajudam a protegê-la?

Porque construir sobre áreas ambientalmente sensíveis pode produzir ganhos imobiliários imediatos, mas transferir custos para toda a sociedade.

Os benefícios podem ser privados e imediatos.

Os prejuízos podem ser públicos, cumulativos e futuros.

É por isso que manguezais, lagoas, áreas úmidas e sistemas naturais de drenagem precisam ser incorporados ao planejamento urbano como infraestrutura ambiental, e não tratados como espaços disponíveis para ocupação simplesmente porque ainda não foram construídos.

Aracaju não precisa escolher entre desenvolvimento e natureza.

Precisa aprender a reconhecer que, em uma cidade costeira e baixa, a natureza também é parte da infraestrutura urbana.

E quando essa infraestrutura é destruída, a conta chega.

A pergunta é apenas quem vai pagá-la — e quanto custará para recuperar aquilo que levou décadas ou séculos para se formar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Solidão, isolamento social e saúde: o paradoxo da hiperconexão

                                                          Dr. J.R. de Almeida 

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes



O crescente interesse científico pela saúde social e pela longevidade tem colocado em evidência uma questão fundamental sobre a natureza humana: os relacionamentos interpessoais não são apenas uma dimensão da vida emocional; eles também estão relacionados ao bem-estar físico e psicológico.

Durante muito tempo, saúde foi compreendida principalmente a partir de fatores individuais, como alimentação, atividade física, sono, genética e acesso a cuidados médicos. Esses elementos continuam sendo fundamentais, mas pesquisas em diferentes áreas passaram a demonstrar que o contexto social no qual uma pessoa vive também pode exercer influência importante sobre sua saúde.

A qualidade dos vínculos, a percepção de pertencimento, a disponibilidade de apoio e a possibilidade de estabelecer relações significativas fazem parte desse contexto.

Surge, então, um dos grandes paradoxos da sociedade contemporânea: nunca houve tantas possibilidades de comunicação e, ao mesmo tempo, a existência de conexões digitais não garante que as pessoas se sintam socialmente conectadas.

Smartphones, redes sociais, aplicativos de mensagens, videoconferências e plataformas digitais permitem que uma pessoa mantenha contato quase instantâneo com indivíduos que estão a milhares de quilômetros de distância. A comunicação tornou-se mais rápida, abundante e acessível.

Mas comunicação não é sinônimo de vínculo.

É possível receber dezenas de mensagens durante o dia e não ter ninguém com quem conversar profundamente. É possível acompanhar diariamente a vida de centenas de pessoas e ainda sentir que não existe alguém verdadeiramente disponível para ouvir, acolher ou oferecer apoio em um momento de vulnerabilidade.

Essa diferença ajuda a explicar por que a chamada hiperconexão digital não elimina automaticamente a solidão.

O problema não está necessariamente na tecnologia. Ferramentas digitais podem aproximar famílias, facilitar a manutenção de amizades, criar comunidades e reduzir distâncias geográficas. Para pessoas que vivem longe de seus familiares ou possuem limitações de mobilidade, por exemplo, a comunicação digital pode representar uma importante fonte de conexão.

A questão central é outra: que tipo de relação está sendo construída por meio dessas ferramentas?

Uma interação rápida pode transmitir informação, mas uma relação significativa envolve elementos que vão além da troca de mensagens: confiança, reciprocidade, reconhecimento, disponibilidade emocional e sensação de pertencimento.

É justamente por isso que compreender solidão e isolamento social exige uma abordagem interdisciplinar.

A psicologia social ajuda a investigar como pertencimento, rejeição, apoio e qualidade dos relacionamentos influenciam pensamentos, emoções e comportamentos. A neurociência procura compreender como o cérebro processa sinais relacionados à conexão, ameaça social, recompensa e rejeição. A biologia evolutiva, por sua vez, oferece uma perspectiva mais ampla sobre por que a vida social adquiriu tamanha importância na trajetória da espécie humana.

Nenhuma dessas áreas, isoladamente, explica toda a complexidade do fenômeno.

A solidão não é simplesmente um problema do cérebro. O isolamento não é apenas uma característica individual. Ambos também são influenciados por condições familiares, econômicas, culturais, urbanas e comunitárias.

Mudanças na estrutura das famílias, envelhecimento populacional, migração, mobilidade profissional, desigualdade social, trabalho remoto, urbanização e transformações nas formas de convivência podem modificar profundamente as oportunidades de estabelecer e manter vínculos.

Por isso, falar em saúde social significa reconhecer que o bem-estar humano não depende apenas do organismo individual, mas também das relações e dos ambientes nos quais esse organismo está inserido.

Isso não significa afirmar que relacionamentos determinam sozinhos a saúde ou a longevidade. As associações observadas em pesquisas são influenciadas por múltiplos fatores, e a relação entre condições sociais e saúde pode ser bidirecional: relações precárias podem contribuir para problemas de saúde, enquanto doenças físicas ou psicológicas também podem dificultar a construção e a manutenção de vínculos.

Ainda assim, a mensagem central permanece importante.

Ser humano é também ser relacional.

A necessidade de conexão não desapareceu com o avanço tecnológico. O que mudou foram as formas pelas quais as pessoas podem se encontrar, comunicar e construir relações.

O grande desafio contemporâneo talvez não seja descobrir como conectar mais pessoas, mas compreender como transformar comunicação em vínculo, presença em pertencimento e contato em relação significativa.



Essa diferença pode ser decisiva para compreender por que uma sociedade cada vez mais conectada tecnologicamente ainda precisa enfrentar o problema da solidão.

Valoração de Danos e Gestão Ambiental em Postos de Combustíveis Ganham Metodologia Sistematizada

                              Dr. J.R. de Almeida e Dr. Camilo Pinto

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes




A gestão ambiental e a fiscalização de Postos Revendedores de Combustíveis (PRC) contam com uma abordagem inovadora para alinhar o diagnóstico técnico à precificação exata de eventuais prejuízos ecológicos. Fundamentada nas diretrizes internacionais da norma NBR ISO 14001 e em regulamentações do estado do Rio de Janeiro, uma nova metodologia sistematizada promete transformar como os aspectos operacionais — de rotina ou acidentais — são mapeados, qualificados e traduzidos financeiramente. A iniciativa responde à necessidade contínua de conferir maior objetividade e segurança jurídica aos processos de fiscalização e auditoria ambiental nessas instalações.


A estrutura do método divide-se em duas frentes integradas: a matriz qualitativa e quantitativa de impactos e o modelo de Valoração Econômica do Impacto Ambiental (VEIA). No primeiro eixo, as atividades operacionais passam por uma análise detalhada em três fases sequenciais, que vão do diagnóstico de campo à quantificação final de relevância. Parâmetros como a situação operacional (normal ou anormal), a responsabilidade (direta ou indireta), o tipo de impacto (benéfico ou adverso) e a temporalidade são criteriosamente cruzados para oferecer um panorama fiel das interações do posto com o meio ambiente.


Para determinar a significância dos eventos, a matriz atribui pontuações ponderadas de 1 a 5 a três variáveis essenciais: a abrangência geográfica do evento (pontual, local ou regional), a gravidade dos danos à capacidade homeostática do meio e a frequência das ocorrências. Da soma desses critérios resulta a classificação da relevância, rotulada em Desprezível, Moderada ou Crítica. Apenas os impactos enquadrados como críticos ou de moderação com potencial adverso expressivo passam à fase de mitigação ou precificação, permitindo que gestores e órgãos ambientais priorizem as ocorrências verdadeiramente graves.


A grande inovação do modelo reside na fórmula matemática criada para calcular o dano em valores monetários (VEIA). A equação multiplica três fatores fundamentais: o Valor da Tancagem (VT) ou do Gás (VG) — derivado do custo médio de licenciamento ambiental (LP, LI e LO) medido em UFIR-RJ —, o Peso da Classe do Posto (PCL), baseado na sensibilidade da vizinhança segundo a NBR 13.786, e o Número de Constatações Ponderadas (NC). Esse arranjo garante que fatores como a presença de rios, escolas, hospitais ou redes subterrâneas nas proximidades aumentem proporcionalmente o valor do dano calculado.


Ao final do processo, os valores expressos em UFIR-RJ são convertidos em moeda corrente (R$), entregando uma métrica padronizada, rápida e juridicamente fundamentada. A integração entre a norma ISO 14001 e a fórmula de valoração financeira representa um avanço expressivo para o setor revendedor de combustíveis e órgãos reguladores. Ao substituir critérios subjetivos por parametrização matemática transparente, o método fortalece a prevenção de passivos ambientais e garante equidade na reparação pecuniária de contaminações e vazamentos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A conectividade ecológica e a recuperação da biodiversidade são determinantes para a restauração florestal

                                                       Dr. J.R. de Almeida

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                                                                                  Editora Priscila Gomes



A Ecologia da Paisagem demonstra que a recuperação de uma floresta depende não apenas das condições existentes em cada área, mas também da forma como os diferentes habitats se encontram distribuídos e conectados no território. A proximidade entre fragmentos florestais, a existência de corredores ecológicos e a possibilidade de deslocação dos organismos influenciam diretamente os processos de regeneração natural e o restabelecimento das comunidades biológicas.

Quando os habitats se encontram isolados, a chegada de determinadas espécies pode ser dificultada, comprometendo a dispersão de sementes, o fluxo genético e a recolonização das áreas degradadas. Este isolamento pode impedir ou atrasar o regresso de espécies-chave, cuja presença é fundamental para a manutenção de processos ecológicos, como a polinização, a dispersão de sementes e a regulação das populações. Consequentemente, mesmo quando a vegetação recupera uma aparência semelhante à de uma floresta madura, o ecossistema pode continuar a apresentar limitações funcionais importantes.

A avaliação da restauração ecológica exige, por isso, uma abordagem que ultrapasse a simples quantificação da riqueza de espécies. Embora o número de espécies presentes constitua um indicador relevante, não permite, isoladamente, determinar se a comunidade biológica apresenta uma composição semelhante à do ecossistema de referência ou se os processos ecológicos foram restabelecidos. Duas florestas com riqueza específica semelhante podem diferir significativamente na abundância relativa das espécies, na presença de organismos especializados e nas interações que sustentam o funcionamento do ecossistema.

A trajetória sucessional depende igualmente das relações estabelecidas entre a fauna e a flora. Os animais desempenham funções essenciais na dispersão de sementes, na polinização e na dinâmica das comunidades vegetais, enquanto as plantas fornecem alimento, abrigo e condições de reprodução para diferentes grupos de organismos. A alteração destas interações pode modificar o ritmo e a direção da regeneração florestal, dificultando o restabelecimento de comunidades características de ecossistemas mais maduros.

Do ponto de vista da Biologia da Conservação, esta perspetiva reforça a necessidade de proteger não apenas a diversidade de espécies, mas também a composição florística, as interações biológicas e as funções ecológicas que garantem a continuidade dos ecossistemas. A conservação da biodiversidade não deve limitar-se à presença de organismos num determinado território; deve procurar assegurar condições para a sua sobrevivência, reprodução e participação nos processos naturais.



Assim, a restauração florestal deve integrar medidas que promovam a conectividade entre habitats, facilitem a recolonização por espécies nativas e favoreçam a recuperação das relações ecológicas. A monitorização dos resultados deverá combinar indicadores de diversidade biológica, composição das comunidades, estrutura da vegetação e funcionamento dos ecossistemas. Esta abordagem permite avaliar de forma mais rigorosa o sucesso das intervenções e contribui para estratégias de conservação mais eficazes e duradouras.



Conectividade da paisagem e conservação da biodiversidade: fatores essenciais para a recuperação das florestas

                                                     Dr. J.R. de Almeida

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                                                                                  Editora Priscila Gomes




A Ecologia da Paisagem e a Biologia da Conservação desempenham um papel fundamental na compreensão dos processos de regeneração florestal e na recuperação da biodiversidade em ecossistemas degradados. Estas áreas científicas permitem analisar não apenas a evolução da vegetação ao longo do tempo, mas também a influência da distribuição dos habitats, da fragmentação florestal e das interações entre espécies na recuperação da integridade ecológica.

Um dos processos centrais neste contexto é a sucessão ecológica, que corresponde à transformação gradual das comunidades biológicas após uma perturbação ambiental. Nas fases iniciais da regeneração, as espécies pioneiras tendem a estabelecer-se rapidamente, beneficiando da disponibilidade de luz e das condições existentes em áreas abertas. Contudo, a sua permanência prolongada pode ocorrer quando existem limitações à chegada, à germinação ou ao estabelecimento de espécies características de fases mais avançadas da sucessão. Consequentemente, uma floresta pode desenvolver uma cobertura vegetal densa sem apresentar a diversidade e a composição de espécies típicas de um ecossistema maduro.

A recuperação da biodiversidade depende, em grande medida, da capacidade de as espécies alcançarem os locais em regeneração. Neste processo, os fragmentos florestais remanescentes assumem particular importância, uma vez que podem funcionar como fontes de sementes, abrigo para organismos dispersores e reservatórios de diversidade genética. Aves, mamíferos, insetos e outros animais contribuem para a dispersão de sementes, favorecendo a colonização de novas áreas e o restabelecimento das interações ecológicas. Quando estes fragmentos se encontram isolados ou demasiado distantes das áreas degradadas, a dispersão pode tornar-se insuficiente, retardando a recuperação da comunidade vegetal.

É neste contexto que a conectividade da paisagem adquire especial relevância. A existência de corredores ecológicos, manchas de vegetação nativa e outros elementos que facilitem a circulação dos organismos pode reduzir os efeitos negativos da fragmentação dos habitats. Ao promover o movimento das espécies entre diferentes áreas, a conectividade favorece a dispersão de sementes, o fluxo genético e a recolonização de locais onde determinadas populações desapareceram. A sua eficácia depende, contudo, das características de cada espécie, da qualidade dos habitats e das condições da matriz envolvente.

A conservação dos fragmentos florestais remanescentes e a recuperação das ligações entre habitats constituem, assim, estratégias importantes para acelerar a regeneração natural e aumentar as probabilidades de restabelecimento da biodiversidade. Mais do que recuperar a cobertura arbórea, torna-se necessário criar condições para que as espécies consigam deslocar-se, reproduzir-se e manter populações viáveis. Esta abordagem permite compreender que a restauração ecológica não depende apenas das características de cada parcela florestal, mas também da forma como esta se integra na paisagem.



Deste modo, a Ecologia da Paisagem e a Biologia da Conservação contribuem para o desenvolvimento de estratégias de gestão territorial que conciliam a recuperação dos ecossistemas com a proteção da biodiversidade. A manutenção de habitats naturais, a redução do isolamento dos fragmentos e a promoção da conectividade ecológica são medidas essenciais para favorecer a sucessão ecológica e aumentar a resiliência das florestas perante as pressões ambientais.

Por que o manguezal de Aracaju vale mais do que se imagina?

                                                        Dr. J.R. de Almeida  [ https:// x .com/dralmeidajr ][ in stagram .com/profalmeidajr/...