terça-feira, 6 de outubro de 2026

Neurociência: por que o cérebro cria a sensação de que algumas pessoas têm mais sorte

                                                          Dr. J.R. de Almeida

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes



A sorte parece, muitas vezes, uma força invisível capaz de favorecer algumas pessoas e ignorar outras. Há quem atribua a uma sequência de acontecimentos positivos uma espécie de destino favorável, enquanto interpreta uma sucessão de fracassos como sinal de azar. Do ponto de vista da neurociência e da psicologia cognitiva, porém, parte dessa percepção pode ser explicada pela maneira como o cérebro seleciona, interpreta e relaciona as informações disponíveis.

O cérebro humano não registra a realidade como uma câmera. Ele seleciona acontecimentos, atribui significado a experiências e procura padrões que ajudem a organizar um mundo marcado pela incerteza. Esse mecanismo é essencial para a sobrevivência, mas também pode produzir ilusões de sorte, controle e causalidade onde existe apenas coincidência.

Um dos mecanismos envolvidos é o viés de confirmação. A tendência faz com que informações que reforçam uma expectativa ou crença recebam maior atenção e sejam lembradas com mais facilidade. Uma pessoa que acredita ser especialmente sortuda, por exemplo, pode recordar durante anos o dia em que encontrou uma nota de R$ 100 na rua, ganhou um prêmio inesperado ou conseguiu uma oportunidade no momento certo. Ao mesmo tempo, centenas ou milhares de dias sem qualquer acontecimento extraordinário tendem a desaparecer da memória como experiências pouco relevantes.

Esse processo não significa que a lembrança seja falsa. O acontecimento realmente ocorreu. O problema está na forma como ele é selecionado e utilizado pelo cérebro para construir uma narrativa. Um episódio excepcional pode adquirir um peso desproporcional quando comparado a uma longa sequência de acontecimentos cotidianos que não confirmam a mesma hipótese.

Outro mecanismo importante é a ilusão de controle, fenômeno no qual as pessoas superestimam a própria capacidade de influenciar acontecimentos que, na realidade, são determinados predominantemente pelo acaso. Em situações imprevisíveis, o cérebro tende a procurar algum elemento que possa ser interpretado como causa.

É nesse contexto que surgem associações como acreditar que determinada roupa trouxe sorte em uma prova, que um ritual aumentou as chances de vitória ou que uma escolha aparentemente insignificante foi responsável por um resultado positivo. A camisa azul não altera necessariamente o desempenho de uma prova, assim como um determinado ritual não modifica as probabilidades de um evento aleatório. Ainda assim, quando duas situações acontecem próximas no tempo, o cérebro pode estabelecer entre elas uma relação causal.

A razão para essa tendência está relacionada à própria arquitetura cognitiva humana. Identificar relações entre acontecimentos foi, durante a evolução, uma habilidade extremamente útil. Reconhecer rapidamente que determinado sinal poderia indicar perigo ou que uma determinada ação poderia produzir uma consequência ajudava na tomada de decisões. O mesmo sistema que permite encontrar padrões reais, entretanto, também pode encontrar padrões onde eles não existem.

É aí que aparece outro fenômeno conhecido como apofenia, termo utilizado para descrever a tendência de perceber conexões significativas entre acontecimentos que não apresentam necessariamente uma relação causal. O fenômeno pode aparecer em situações simples do cotidiano, como enxergar rostos em tomadas, nuvens ou manchas, mas também pode participar da construção de explicações mais complexas para coincidências e acontecimentos aleatórios.

A percepção de padrões é tão poderosa que o cérebro pode transformar uma sequência de eventos independentes em uma história aparentemente coerente. Quando alguém joga uma moeda várias vezes e observa uma sequência incomum de caras ou coroas, por exemplo, pode ter a sensação de que existe uma lógica por trás da sequência. Estatisticamente, porém, resultados anteriores não precisam determinar o resultado seguinte quando os eventos são independentes.

Essa característica ajuda a explicar por que a sorte pode parecer uma propriedade pessoal. Ao observar apenas os resultados que se destacam, a mente constrói uma narrativa: determinada pessoa seria "sortuda", outra teria "azar" e uma terceira pareceria ter um talento especial para estar no lugar certo na hora certa.

A ciência, entretanto, faz uma distinção importante entre probabilidade, preparação e percepção. Uma pessoa não controla a probabilidade de ganhar na loteria, a ocorrência de um engarrafamento ou o surgimento inesperado de uma oportunidade profissional. Esses acontecimentos dependem de uma combinação de fatores que, em grande parte, estão fora do controle individual.

O que pode ser modificado é a prontidão para reconhecer e aproveitar uma oportunidade quando ela aparece.

Uma pessoa que conversa com mais gente pode aumentar o número de possibilidades de estabelecer uma conexão profissional. Quem tenta diferentes estratégias diante de um problema pode aumentar a probabilidade de encontrar uma solução. Quem analisa os próprios erros pode transformar uma experiência negativa em informação para uma tentativa futura. Nada disso significa controlar o acaso. Significa aumentar a capacidade de responder a ele.

Essa distinção é particularmente relevante porque acontecimentos classificados como "sorte" frequentemente resultam da interação entre circunstâncias externas e comportamento individual. Uma oportunidade pode surgir de maneira inesperada, mas apenas será aproveitada se alguém estiver preparado para reconhecê-la e agir.

A famosa associação entre sorte e preparação é frequentemente atribuída ao filósofo romano Sêneca, embora a formulação exata da frase popularmente conhecida como "sorte é o que acontece quando a preparação encontra a oportunidade" não possa ser tratada com segurança como uma citação literal de sua autoria. Ainda assim, a ideia permanece compatível com uma observação central da ciência comportamental: resultados inesperados não dependem apenas das circunstâncias, mas também de como as pessoas percebem e respondem às oportunidades.

Em uma interpretação contemporânea, a relação poderia ser resumida de maneira simples: sorte percebida = oportunidade × prontidão. A fórmula não representa uma equação científica literal, mas uma metáfora para distinguir aquilo que está fora do controle humano daquilo que pode ser desenvolvido.

A probabilidade pertence ao domínio do acaso. A prontidão pertence ao domínio do comportamento.

Essa perspectiva também modifica a maneira como o fracasso é interpretado. Uma tentativa que não produziu resultado não significa necessariamente falta de sorte. Da mesma forma, um sucesso inesperado não prova que determinada estratégia ou ritual tenha causado o resultado. Em ambos os casos, é necessário separar a coincidência da causalidade.

O cérebro continuará procurando padrões, porque essa é uma de suas características fundamentais. O objetivo da ciência não é eliminar essa tendência, mas compreender quando ela pode produzir interpretações equivocadas. Reconhecer os mecanismos envolvidos no viés de confirmação, na ilusão de controle e na apofenia permite observar a própria experiência com maior senso crítico.

No fim, a chamada "pessoa sortuda" pode não ser alguém favorecido por uma força misteriosa. Pode ser alguém que percebe mais oportunidades, permanece disponível para novas experiências, aprende com as tentativas anteriores e está preparado para agir quando uma circunstância favorável aparece.



O acaso continua existindo. O que muda é a capacidade de encontrá-lo preparado.



A Sorte Não Existe. Mas Você Pode Fabricar a Sua

                                                           Dr. J.R. de Almeida

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes





Cientificamente, sorte não é uma força mística, não é destino e não é uma energia invisível que escolhe algumas pessoas para serem favorecidas pelo universo.

“Sorte” é, muitas vezes, a palavra que usamos para descrever uma combinação favorável de acontecimentos — especialmente quando eles são improváveis, inesperados ou acontecem justamente conosco.

E a ciência ajuda a desmontar esse conceito em pelo menos três camadas: estatística, comportamento e oportunidade.

A primeira começa com uma ideia simples, mas poderosa:
1. Estatística: o raro acontece

Na matemática, ganhar na loteria, encontrar uma oportunidade inesperada ou pegar vários sinais verdes consecutivos pode ser entendido como um resultado possível dentro de uma distribuição de probabilidades.

Um acontecimento improvável não é um acontecimento impossível.

É importante fazer uma distinção. A Lei dos Grandes Números não afirma que todo evento raro necessariamente acontecerá. Ela mostra que, quando um experimento aleatório é repetido muitas vezes sob condições semelhantes, a frequência observada dos resultados tende a se aproximar da probabilidade esperada.

Isso significa que, em uma população enorme e ao longo de uma quantidade gigantesca de acontecimentos, resultados extremamente improváveis para um indivíduo podem deixar de ser surpreendentes quando observados no conjunto.

Imagine milhões de pessoas realizando milhões de tentativas. Em algum lugar, alguém estará justamente no extremo da distribuição.

Essa pessoa provavelmente não dirá:

“A estatística finalmente produziu um resultado esperado.”

Ela dirá:

“Eu tive sorte.”

E é aí que nosso cérebro entra em cena.

O universo não necessariamente escolheu aquela pessoa.

A estatística simplesmente permitiu que aquele resultado acontecesse.

Nosso cérebro, entretanto, não é particularmente confortável com a aleatoriedade. Somos uma espécie extraordinariamente eficiente em procurar padrões, relações e explicações para aquilo que acontece ao nosso redor.

Essa capacidade foi extremamente importante para nossa sobrevivência. Identificar rapidamente uma relação entre acontecimentos podia significar perceber um predador, antecipar uma ameaça ou reconhecer uma fonte de alimento.

O problema é que essa mesma capacidade pode nos levar a enxergar padrões onde existe apenas coincidência.

Se você pensa em uma determinada pessoa e, alguns minutos depois, recebe uma mensagem dela, pode interpretar o episódio como uma conexão especial.

Se compra um bilhete e ganha um prêmio, pode atribuir o resultado à sua “boa fase”.

Se escolhe determinado caminho e encontra uma oportunidade inesperada, pode acreditar que “era para acontecer”.

Mas existe uma explicação menos extraordinária:

eventos independentes podem coincidir.

E, quando o acontecimento é raro e emocionalmente significativo, nossa memória tende a valorizá-lo ainda mais.

Nós lembramos da vez em que pensamos em alguém e essa pessoa telefonou.

Não lembramos das centenas de vezes em que pensamos em alguém e absolutamente nada aconteceu.

É assim que uma coincidência pode ganhar a aparência de destino.
A estatística não precisa escolher ninguém

Existe ainda outro fenômeno importante: quando há um número suficientemente grande de tentativas, resultados extremos deixam de ser matematicamente surpreendentes.

Se milhões de pessoas fazem alguma coisa, alguém terá um resultado extraordinariamente positivo.

Outra pessoa terá um resultado extraordinariamente negativo.

Uma terceira estará exatamente no meio.

A primeira pode ser chamada de sortuda.

A segunda, de azarada.

Mas ambas podem simplesmente estar ocupando posições diferentes dentro da mesma distribuição de resultados.

O erro está em olhar para o vencedor depois que o acontecimento aconteceu e imaginar que aquele resultado era, de alguma maneira, destinado a ele.

Não era necessariamente.

Ele apenas aconteceu.

E aqui começa uma distinção ainda mais interessante:

uma coisa é a sorte que acontece com você; outra é aumentar deliberadamente a quantidade de oportunidades para que coisas boas possam acontecer.

É nesse ponto que a expressão “fabricar a própria sorte” deixa de ser apenas uma metáfora motivacional e começa a encontrar uma explicação comportamental.

Você não controla a aleatoriedade.

Não controla quem vai responder ao seu e-mail.

Não controla qual projeto será aprovado.

Não controla quando surgirá uma oportunidade.

Não controla todas as circunstâncias que encontrarão você pelo caminho.

Mas pode controlar quantas portas você tenta abrir.

Pode escrever mais.

Pode estudar mais.

Pode conhecer mais pessoas.

Pode apresentar mais projetos.

Pode publicar mais.

Pode fazer mais perguntas.

Pode experimentar mais.

Pode colocar suas ideias em circulação.

E isso muda completamente a matemática da sua vida.

Você não está criando o acaso.

Está aumentando o número de situações nas quais um resultado favorável pode acontecer.

A pessoa que envia uma proposta pode receber uma resposta.

A que envia dez propostas terá mais ocasiões para receber uma.

A pessoa que publica uma ideia pode ser descoberta.

A que publica cem ideias cria muito mais pontos de contato com leitores, pesquisadores, empresas, jornalistas, instituições e potenciais colaboradores.

Isso não significa que o sucesso seja garantido.

Significa apenas que a probabilidade de encontrar uma oportunidade pode ser influenciada pelo número de oportunidades que você decide criar.

A sorte continua sendo aleatória.

Mas a exposição ao acaso pode ser uma escolha.
2. Psicologia: pessoas que se consideram sortudas podem se comportar de maneira diferente

É aqui que a história fica ainda mais interessante.

Durante anos, o psicólogo britânico Richard Wiseman estudou pessoas que se descreviam como “sortudas” e aquelas que se consideravam “azaradas”. Em seus estudos, ele procurou identificar diferenças na maneira como esses grupos percebiam e respondiam às situações cotidianas.

A conclusão mais interessante não envolve amuletos, números mágicos ou alguma capacidade sobrenatural.

Envolve comportamento e percepção.

Pessoas que se consideravam sortudas tendiam a relatar maior abertura para oportunidades, maior disposição para interagir com outras pessoas e uma maneira diferente de interpretar acontecimentos inesperados.

Em outras palavras:

talvez algumas pessoas pareçam ter mais sorte porque se colocam em mais situações nas quais a sorte pode acontecer.

Imagine duas pessoas entrando no mesmo elevador.

Uma olha para o celular durante todo o trajeto.

A outra percebe que está ao lado de alguém que trabalha em uma área que lhe interessa e começa uma conversa.

A primeira chega ao andar seguinte exatamente como entrou.

A segunda pode sair dali com uma informação, um contato, uma ideia ou uma oportunidade.

Nenhuma das duas recebeu uma bênção do universo.

Uma simplesmente criou uma interação que a outra não criou.

O mesmo pode acontecer em situações aparentemente banais.

A pessoa que presta atenção pode perceber uma palestra que a outra não viu.

Quem aceita conversar com desconhecidos pode descobrir uma oportunidade profissional.

Quem aceita um convite de última hora pode conhecer alguém importante para um projeto futuro.

Quem observa o ambiente pode perceber uma informação que estava disponível para todos, mas que poucos notaram.

A chamada “sorte” pode surgir, portanto, da combinação entre atenção, exposição, interação e oportunidade.

Não significa que pessoas extrovertidas sejam necessariamente mais sortudas. Nem que alguém precise conversar com todo mundo para ter sucesso.

O ponto é outro:

quanto maior o número de interações e situações às quais uma pessoa se expõe, maior pode ser o número de oportunidades que ela encontra.

Isso é muito diferente de acreditar em sorte como uma propriedade sobrenatural.

É comportamento.
A profecia que ajuda a produzir o próprio resultado

Existe ainda outro mecanismo psicológico interessante: a chamada profecia autorrealizável.

Quando uma pessoa espera que determinada situação tenha alguma possibilidade de dar certo, essa expectativa pode influenciar seu comportamento.

Ela pode tentar mais.

Pode insistir por mais tempo.

Pode procurar alternativas quando encontra uma dificuldade.

Pode interpretar um obstáculo como temporário.

Pode pedir ajuda.

Pode voltar a tentar.

E cada uma dessas atitudes modifica as oportunidades disponíveis.

Isso não significa que pensar positivamente faça qualquer objetivo acontecer.

Uma expectativa otimista não altera as leis da física, não garante uma promoção e certamente não transforma uma aposta perdida em uma aposta vencedora.

Mas, em determinadas situações, a expectativa pode influenciar o comportamento, e o comportamento pode influenciar os resultados.

Uma pessoa que acredita que vale a pena tentar pode realizar cinco tentativas.

Outra, convencida de que não vai funcionar, pode desistir na primeira.

Se uma delas obtiver sucesso na quinta tentativa, depois poderemos chamar o resultado de “sorte”.

Mas existe uma história comportamental por trás daquele resultado.

Ela permaneceu no jogo tempo suficiente para encontrar uma possibilidade que a outra pessoa abandonou antes de encontrar.
E existe uma diferença ainda mais importante: como interpretamos o fracasso

Talvez o aspecto mais poderoso dessa chamada “sorte psicológica” esteja na maneira como as pessoas interpretam aquilo que dá errado.

Imagine que duas pessoas estejam dirigindo e tenham um pneu furado.

O acontecimento é exatamente o mesmo.

Uma pode pensar:

“É claro. Essas coisas só acontecem comigo.”

A outra pode pensar:

“Ainda bem que aconteceu aqui, perto de uma borracharia, e não na estrada.”

O pneu furado continua furado.

A realidade objetiva não mudou.

Mas a interpretação mudou.

Essa capacidade de reinterpretar acontecimentos adversos está relacionada àquilo que a psicologia chama de reavaliação cognitiva e também dialoga com o conceito mais amplo de resiliência.

Isso não significa negar o problema.

O pneu continua precisando ser consertado.

Uma perda continua sendo uma perda.

Uma rejeição continua sendo uma rejeição.

Uma oportunidade perdida não deixa de ter sido perdida.

Resiliência não é fingir que algo ruim foi bom.

É conseguir atribuir ao acontecimento um significado que permita continuar funcionando e agir diante dele.

A diferença pode parecer pequena, mas produz consequências enormes.

Quem interpreta todo fracasso como confirmação de que “nada dá certo” pode reduzir sua disposição para tentar novamente.

Quem interpreta o mesmo fracasso como informação, experiência ou circunstância específica pode usar aquilo para ajustar a próxima tentativa.

No primeiro caso, o fracasso encerra a sequência.

No segundo, ele pode fazer parte dela.

E isso produz uma diferença cumulativa ao longo do tempo.
O mesmo acontecimento, duas histórias

É possível resumir a diferença assim:

O azarado pergunta: “Por que isso sempre acontece comigo?”

O resiliente pergunta: “O que posso fazer com o que aconteceu?”

A primeira pergunta procura uma identidade.

A segunda procura uma possibilidade de ação.

E talvez essa seja uma das razões pelas quais algumas pessoas parecem atravessar a vida encontrando mais oportunidades.

Não necessariamente porque recebam mais acontecimentos favoráveis.

Mas porque percebem mais oportunidades, criam mais interações, persistem por mais tempo e conseguem continuar em movimento depois que alguma coisa dá errado.

A sorte, nesse sentido, não precisa ser uma propriedade que algumas pessoas possuem.

Pode ser, em parte, o resultado acumulado de uma maneira diferente de olhar, agir, tentar e reagir.

E isso nos leva à terceira camada.

Porque perceber oportunidades é importante.

Criá-las é ainda mais importante.

E existe uma maneira muito concreta de aumentar a quantidade delas:

aumentar o número de vezes que você coloca alguma coisa no mundo.



É aí que a sorte começa a encontrar a estratégia.

A Sorte Não Existe. Mas Você Pode Fabricar a Sua

                                                      Dr. J.R. de Almeida

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes





Cientificamente, sorte não é uma força mística, não é destino e não é uma energia invisível que escolhe algumas pessoas para serem favorecidas pelo universo.

“Sorte” é, muitas vezes, apenas a palavra que usamos para descrever uma combinação favorável de acontecimentos — especialmente quando eles são improváveis, inesperados ou acontecem justamente conosco.

E a ciência ajuda a desmontar esse conceito em pelo menos três camadas: estatística, comportamento e oportunidade.

A primeira começa com uma ideia simples, mas poderosa:
1. Estatística: o raro acontece

Na matemática, ganhar na loteria, encontrar uma oportunidade inesperada ou pegar vários sinais verdes consecutivos pode ser entendido como um resultado possível dentro de uma distribuição de probabilidades.

Um acontecimento improvável não é um acontecimento impossível.

É importante fazer uma distinção. A Lei dos Grandes Números não afirma que todo evento raro necessariamente acontecerá. Ela mostra que, quando um experimento aleatório é repetido muitas vezes sob condições semelhantes, a frequência observada dos resultados tende a se aproximar da probabilidade esperada.

Isso significa que, em uma população enorme e ao longo de uma quantidade gigantesca de acontecimentos, resultados extremamente improváveis para um indivíduo podem deixar de ser surpreendentes quando observados no conjunto.

Imagine milhões de pessoas realizando milhões de tentativas. Em algum lugar, alguém estará justamente no extremo da distribuição.

Essa pessoa provavelmente não dirá:

“A estatística finalmente produziu um resultado esperado.”

Ela dirá:

“Eu tive sorte.”

E é aí que nosso cérebro entra em cena.

O universo não necessariamente escolheu aquela pessoa.

A estatística simplesmente permitiu que aquele resultado acontecesse.

Nosso cérebro, entretanto, não é particularmente confortável com a aleatoriedade. Somos uma espécie extraordinariamente eficiente em procurar padrões, relações e explicações para aquilo que acontece ao nosso redor.

Essa capacidade foi extremamente importante para nossa sobrevivência. Identificar rapidamente uma relação entre acontecimentos podia significar perceber um predador, antecipar uma ameaça ou reconhecer uma fonte de alimento.

O problema é que essa mesma capacidade pode nos levar a enxergar padrões onde existe apenas coincidência.

Se você pensa em uma determinada pessoa e, alguns minutos depois, recebe uma mensagem dela, pode interpretar o episódio como uma conexão especial.

Se compra um bilhete e ganha um prêmio, pode atribuir o resultado à sua “boa fase”.

Se escolhe determinado caminho e encontra uma oportunidade inesperada, pode acreditar que “era para acontecer”.

Mas existe uma explicação menos extraordinária:

eventos independentes podem coincidir.

E, quando o acontecimento é raro e emocionalmente significativo, nossa memória tende a valorizá-lo ainda mais.

Nós lembramos da vez em que pensamos em alguém e essa pessoa telefonou.

Não lembramos das centenas de vezes em que pensamos em alguém e absolutamente nada aconteceu.

É assim que uma coincidência pode ganhar a aparência de destino.
A estatística não precisa escolher ninguém

Existe ainda outro fenômeno importante: quando há um número suficientemente grande de tentativas, resultados extremos deixam de ser matematicamente surpreendentes.

Se milhões de pessoas fazem alguma coisa, alguém terá um resultado extraordinariamente positivo.

Outra pessoa terá um resultado extraordinariamente negativo.

Uma terceira estará exatamente no meio.

A primeira pode ser chamada de sortuda.

A segunda, de azarada.

Mas ambas podem simplesmente estar ocupando posições diferentes dentro da mesma distribuição de resultados.

É uma consequência poderosa da probabilidade: quando existem muitas oportunidades para algo acontecer, até acontecimentos muito improváveis podem ocorrer em algum lugar.

O erro está em olhar para o vencedor depois que o acontecimento aconteceu e imaginar que aquele resultado era, de alguma maneira, destinado a ele.

Não era necessariamente.

Ele apenas aconteceu.

E aqui começa uma distinção ainda mais interessante:

uma coisa é a sorte que acontece com você; outra é aumentar deliberadamente a quantidade de oportunidades para que coisas boas possam acontecer.

É nesse ponto que a expressão “fabricar a própria sorte” deixa de ser apenas uma metáfora motivacional e começa a encontrar uma explicação comportamental.

Você não controla a aleatoriedade.

Não controla quem vai responder ao seu e-mail.

Não controla qual projeto será aprovado.

Não controla quando surgirá uma oportunidade.

Não controla todas as circunstâncias que encontrarão você pelo caminho.

Mas pode controlar quantas portas você tenta abrir.

Pode escrever mais.

Pode estudar mais.

Pode conhecer mais pessoas.

Pode apresentar mais projetos.

Pode publicar mais.

Pode fazer mais perguntas.

Pode experimentar mais.

Pode colocar suas ideias em circulação.

E isso muda completamente a matemática da sua vida.

Você não está criando o acaso.

Está aumentando o número de situações nas quais um resultado favorável pode acontecer.

Talvez essa seja uma definição muito mais interessante de “fabricar a própria sorte”.

Não é convencer o universo a trabalhar a seu favor.

É aumentar sistematicamente a superfície de contato entre você e as oportunidades.

A pessoa que envia uma proposta pode receber uma resposta.

A que envia dez propostas terá mais ocasiões para receber uma.

A pessoa que publica uma ideia pode ser descoberta.

A que publica cem ideias cria muito mais pontos de contato com leitores, pesquisadores, empresas, jornalistas, instituições e potenciais colaboradores.

Isso não significa que o sucesso seja garantido.

Significa apenas que a probabilidade de encontrar uma oportunidade pode ser influenciada pelo número de oportunidades que você decide criar.

A sorte continua sendo aleatória.

Mas a exposição ao acaso pode ser uma escolha.

E talvez seja justamente aí que a frase faça sentido:

A sorte não existe como força sobrenatural. Mas você pode construir as condições para que acontecimentos favoráveis tenham mais chances de encontrar você.

O universo não precisa escolher você.



Você pode simplesmente aumentar o número de vezes em que estará disponível quando a oportunidade aparecer.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Desempenho Mecânico e Redução da Pegada Ecológica: RCD Apresenta Rigidez 67% Superior no MeDiNa

                                                        Dr. J.R. de Almeida

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes



A busca por soluções mais sustentáveis para a infraestrutura rodoviária tem ampliado o interesse pelo uso de Resíduos da Construção e Demolição (RCD) como materiais para camadas estruturais de pavimentos. Nesse contexto, o desempenho mecânico deixa de ser analisado apenas como uma questão de resistência e durabilidade e passa também a integrar a discussão sobre eficiência no uso de recursos naturais, redução da necessidade de extração mineral e potencial diminuição dos impactos ambientais associados à construção e à manutenção das rodovias.

Os resultados obtidos no processamento dos dados de FWD (Falling Weight Deflectometer), por meio do sistema BackMeDiNa, indicam um desempenho particularmente expressivo da base executada com RCD no Trecho “S”. A retroanálise computacional estimou um Módulo de Resiliência (MR) efetivo médio de 569 MPa para a camada reciclada. Para efeito de comparação, materiais convencionais provenientes de pedreiras, representados pela Brita Graduada Simples (BGS) nas condições consideradas, apresentaram MR médio de aproximadamente 340 MPa.

A diferença entre os valores corresponde a um ganho de aproximadamente 67% no módulo de resiliência da base constituída por RCD em relação ao material convencional utilizado como referência.

Esse resultado é relevante porque o Módulo de Resiliência representa uma propriedade fundamental para compreender o comportamento de materiais empregados em pavimentação submetidos à ação repetida do tráfego. De maneira simplificada, o parâmetro expressa a capacidade do material de responder elasticamente às solicitações impostas pelas cargas dos veículos, recuperando grande parte de sua deformação após a passagem da carga.

Uma camada de base com comportamento mecânico adequado pode contribuir para que os esforços sejam distribuídos de maneira mais eficiente pelo sistema estrutural do pavimento. Isso influencia diretamente o estado de tensões e deformações ao qual ficam submetidas as camadas superiores, especialmente o revestimento asfáltico.

É justamente nesse ponto que o resultado obtido para o RCD ganha importância para a engenharia de pavimentos. Um material reciclado que apresenta desempenho mecânico compatível ou superior ao de uma solução convencional amplia as possibilidades de substituição de agregados naturais sem que a sustentabilidade seja obtida às custas de uma perda de desempenho estrutural.

A comparação entre os 569 MPa estimados para o RCD e os 340 MPa associados à BGS evidencia que, nas condições analisadas, o resíduo não se comportou simplesmente como uma alternativa de menor desempenho utilizada por razões ambientais. Ao contrário, os dados apontam para uma resposta mecânica superior na condição avaliada, aspecto que merece atenção tanto do ponto de vista técnico quanto ambiental.
Quando desempenho mecânico e sustentabilidade caminham juntos

A utilização de RCD em pavimentação possui uma vantagem ambiental potencial que ultrapassa a simples substituição de um material por outro. Quando resíduos provenientes de atividades de construção e demolição são incorporados novamente à cadeia produtiva, cria-se a possibilidade de reduzir a quantidade de material destinado à disposição final e, simultaneamente, diminuir a demanda por agregados naturais provenientes de jazidas minerais.

Essa substituição pode representar uma mudança importante na lógica tradicional de produção de pavimentos. Em vez de retirar continuamente novos recursos minerais do ambiente, processá-los, transportá-los e incorporá-los à infraestrutura, parte da matéria-prima necessária pode ser obtida de materiais que já passaram por uma primeira utilização.

Entretanto, é importante destacar que a redução da pegada ambiental não pode ser determinada exclusivamente pelo valor do Módulo de Resiliência. Uma avaliação ambiental completa deve considerar também fatores como distância de transporte, consumo energético no processamento e beneficiamento do RCD, origem do resíduo, necessidade de britagem e classificação, utilização de equipamentos, emissões associadas à logística e possibilidade de reaproveitamento futuro.

Assim, o elevado MR observado no Trecho “S” constitui um importante indicador de desempenho mecânico, mas a conclusão sobre a redução efetiva da pegada de carbono depende de uma avaliação do ciclo de vida da solução de pavimentação.
O papel do MeDiNa na avaliação estrutural

A utilização do MeDiNa e de ferramentas associadas à retroanálise permite avançar de uma avaliação puramente visual do pavimento para uma interpretação baseada no comportamento estrutural observado em campo.

Os ensaios com FWD fornecem informações sobre a resposta do pavimento à aplicação de cargas conhecidas. A partir das deflexões medidas, a retroanálise busca estimar parâmetros estruturais das diferentes camadas que compõem o sistema.

Nesse contexto, o resultado de 569 MPa para o MR efetivo médio da base de RCD representa uma informação particularmente relevante. Não se trata apenas de afirmar que o pavimento “funciona”, mas de quantificar, por meio de modelagem e interpretação dos dados de campo, uma propriedade relacionada ao comportamento estrutural da camada.

A comparação com os 340 MPa da BGS reforça a dimensão do resultado. Considerando os valores apresentados, o material reciclado apresenta uma diferença absoluta de aproximadamente 229 MPa, além do ganho relativo de cerca de 67%.







A visualização ajuda a contextualizar uma questão fundamental: desempenho técnico e impacto ambiental precisam ser analisados conjuntamente. Um material só pode ser considerado uma alternativa efetivamente sustentável quando sua utilização apresenta viabilidade técnica e, ao mesmo tempo, benefícios ambientais comprováveis ao longo do ciclo de vida.
Menor solicitação estrutural não significa automaticamente menor consumo de asfalto

Um dos pontos que merece maior cuidado na interpretação dos resultados é a relação entre o MR da base e a espessura do revestimento asfáltico.

Em princípio, materiais com maior capacidade estrutural podem contribuir para uma configuração mais eficiente do pavimento. Entretanto, não é correto concluir automaticamente que um aumento de 67% no MR produzirá uma redução proporcional na espessura do CBUQ.

O dimensionamento de um pavimento depende de um conjunto de variáveis: tráfego, clima, propriedades das demais camadas, subleito, confiabilidade, critérios de fadiga, deformação permanente, condições de drenagem e parâmetros específicos do método de dimensionamento adotado.

O resultado observado, portanto, deve ser interpretado como uma evidência de desempenho mecânico favorável, e não como uma redução automaticamente quantificável de consumo de concreto betuminoso.

Ainda assim, caso o melhor comportamento estrutural do RCD permita, no dimensionamento específico, otimizar as espessuras das camadas ou aumentar a vida de serviço do pavimento, poderão surgir benefícios ambientais adicionais. Menor consumo de materiais, menor frequência de intervenções e redução das atividades de manutenção significam, potencialmente, menor movimentação de equipamentos, transporte de materiais e consumo de recursos.
O efeito sobre a fadiga da capa asfáltica

Outro aspecto relevante está relacionado ao risco de fadiga do revestimento asfáltico.

A fadiga é um dos mecanismos de deterioração associados à repetição de cargas de tráfego. Ao longo do tempo, sucessivos ciclos de carregamento podem provocar o desenvolvimento e a propagação de danos no revestimento, especialmente quando as tensões e deformações atuantes ultrapassam determinados níveis considerados admissíveis pelo modelo de dimensionamento.

Uma base com comportamento estrutural mais favorável pode modificar a distribuição dos esforços dentro do pavimento e, dependendo da configuração estrutural e das condições de carregamento, contribuir para reduzir determinadas solicitações sobre o revestimento.

Por isso, o resultado encontrado para o RCD é especialmente interessante: a utilização de um material reciclado não apresentou, nas condições estudadas, uma penalização mecânica evidente; ao contrário, a retroanálise apontou um módulo de resiliência superior ao da referência convencional.

Contudo, a afirmação de que o ganho de MR “reduz drasticamente” o risco de fadiga exige uma etapa adicional de análise. Para demonstrar essa redução de maneira quantitativa, seria necessário relacionar o MR obtido aos modelos de fadiga empregados no dimensionamento e comparar as previsões de desempenho das diferentes soluções estruturais.
Da economia circular à infraestrutura rodoviária

O caso do Trecho “S” também evidencia uma dimensão mais ampla da sustentabilidade na engenharia civil. O aproveitamento de RCD transforma um problema de geração de resíduos em uma possível fonte de matéria-prima para novas obras de infraestrutura.

Essa lógica está diretamente associada aos princípios da economia circular: prolongar o valor dos materiais, reduzir o desperdício e diminuir a dependência de recursos naturais virgens sempre que tecnicamente possível.

Quando o material reciclado apresenta desempenho mecânico adequado, essa estratégia ganha uma vantagem adicional. A sustentabilidade deixa de depender exclusivamente de uma justificativa ambiental e passa a estar apoiada também em evidências de comportamento estrutural.

É justamente essa combinação que torna os resultados obtidos particularmente relevantes. O RCD não aparece apenas como uma solução destinada a reduzir a quantidade de resíduos encaminhados para disposição. Os dados de campo e a retroanálise indicam que o material pode apresentar desempenho estrutural competitivo — e, na condição analisada, superior ao material convencional de referência.
Um resultado que precisa ser interpretado dentro de suas condições

Apesar do resultado expressivo, a diferença de 67% não deve ser generalizada para todos os RCD, todas as obras ou todas as condições de pavimentação.

O comportamento mecânico de materiais reciclados depende de características como composição granulométrica, origem dos resíduos, grau de processamento, presença de materiais cerâmicos ou cimentícios, umidade, compactação, estado de tensões e condições de execução.

Por essa razão, o valor de 569 MPa deve ser compreendido como um resultado associado às condições específicas do Trecho “S” e ao conjunto de procedimentos utilizados na avaliação. Estudos realizados em outras obras podem produzir valores diferentes.

Essa ressalva, entretanto, não diminui a importância do resultado. Pelo contrário: ela reforça a necessidade de transformar experiências de campo em dados técnicos capazes de orientar novos projetos, especificações e pesquisas.
Mais que um resíduo: um componente estrutural potencialmente estratégico

Os resultados da retroanálise colocam o RCD em uma perspectiva particularmente interessante para a engenharia de pavimentos. A questão deixa de ser simplesmente “podemos utilizar resíduos na construção de rodovias?” e passa a ser “em quais condições o material reciclado pode apresentar desempenho técnico e ambientalmente vantajoso?”

No Trecho “S”, os dados apontam para uma resposta promissora. O RCD apresentou MR efetivo médio de 569 MPa, contra 340 MPa para a BGS considerada como referência, correspondendo a uma diferença relativa de aproximadamente 67%.

Esse desempenho sugere que materiais provenientes da construção e demolição podem assumir uma função estrutural relevante quando corretamente processados, caracterizados, especificados e empregados.

A principal contribuição desse tipo de estudo, portanto, está em aproximar duas agendas que durante muito tempo foram tratadas separadamente: a engenharia estrutural dos pavimentos e a sustentabilidade ambiental das obras de infraestrutura.

Quando os dados demonstram que um material reciclado pode apresentar elevado desempenho mecânico, a discussão ambiental ganha uma nova dimensão. A redução do consumo de recursos naturais deixa de ser apenas uma possibilidade associada à reciclagem e passa a estar vinculada à capacidade de produzir uma solução tecnicamente funcional.

No futuro da infraestrutura rodoviária, esse tipo de integração tende a ser cada vez mais importante. O pavimento sustentável não será necessariamente aquele que utiliza apenas materiais reciclados, mas aquele que consegue combinar desempenho, durabilidade, segurança, eficiência econômica e menor impacto ambiental ao longo de todo o seu ciclo de vida.

E é justamente nessa convergência entre desempenho mecânico e responsabilidade ambiental que o RCD pode deixar de ser visto apenas como resíduo e passar a ser reconhecido como um componente estratégico da infraestrutura circular.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Capital de prestígio também pode se transformar em oportunidades profissionais

                                                               Dr. J.R. de Almeida

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes





Existe ainda uma dimensão dessa discussão que raramente aparece quando falamos de bibliometria: o valor profissional da reputação construída ao longo do tempo.

Uma carreira científica não produz apenas artigos e citações. Produz também conhecimento, experiência, relacionamentos, confiança e reconhecimento profissional.

E esse patrimônio pode se transformar em oportunidades.

Um pesquisador que se torna conhecido por determinada área pode ser convidado para participar de projetos, emitir pareceres, atuar como consultor, ministrar cursos, colaborar com instituições ou contribuir em processos que exigem conhecimento especializado.

Em algumas situações, essa trajetória também pode contribuir para que seu nome seja considerado para atividades como perícias judiciais ou consultorias técnicas. Mas é importante separar reputação de nomeação: um juiz não escolhe automaticamente um perito porque encontrou seu blog, assim como um cliente não contrata necessariamente um consultor apenas porque ele possui grande visibilidade digital.

Existem requisitos legais, técnicos e institucionais próprios.

O blog cumpre outra função: torna visível a competência.
O currículo mostra o que você fez. O conteúdo mostra como você pensa.

Imagine dois currículos.

Um apresenta títulos, artigos, orientações, projetos e citações.

O outro apresenta tudo isso e, além disso, permite que o leitor encontre dezenas de textos nos quais o pesquisador explica problemas complexos, apresenta referências, discute métodos, interpreta resultados e reconhece as limitações de suas próprias conclusões.

A segunda situação oferece ao leitor uma informação adicional.

Ele não conhece apenas o que o pesquisador produziu.

Consegue observar como ele raciocina sobre aquilo que produziu.

Essa diferença pode ser especialmente importante em atividades profissionais nas quais a capacidade de comunicação é parte do trabalho.

Um perito precisa explicar.

Um consultor precisa explicar.

Um professor precisa explicar.

Um parecerista precisa explicar.

E um pesquisador que consegue transformar um problema técnico complexo em uma explicação clara demonstra uma competência que uma lista de publicações, sozinha, não consegue mostrar completamente.
Da produção científica à confiança profissional

É aqui que o conceito de capital de prestígio ganha uma dimensão prática.

O reconhecimento construído ao longo de anos pode gerar confiança. A confiança pode abrir portas. E essas portas podem resultar em novas atividades profissionais.

Não existe uma fórmula automática:

artigo → blog → dinheiro.

A realidade é muito mais complexa.

O caminho costuma envolver uma combinação de experiência, formação, produção científica, reputação, rede profissional, competência técnica, capacidade de comunicação e oportunidade.

Mas existe algo que o pesquisador pode fazer diretamente: deixar evidências públicas daquilo que sabe fazer.

Um blog técnico é uma dessas ferramentas.

Quando um profissional escreve regularmente sobre determinado assunto, seu nome começa a ficar associado a um conjunto de temas. Seus textos passam a formar uma espécie de arquivo público de conhecimento.

Com o tempo, esse arquivo pode se tornar uma biblioteca pessoal.

E essa biblioteca continua disponível mesmo quando o pesquisador não está presente para explicar pessoalmente seu trabalho.
O artigo pontua. O conhecimento constrói uma trajetória.

O artigo científico continua sendo indispensável.

Ele registra uma contribuição formal à literatura.

Passa por processos editoriais.

Pode ser citado.

Integra o currículo.

Contribui para avaliações acadêmicas.

Mas o artigo possui um ciclo específico.

O blog pode cumprir outro papel.

Ele permite continuar explicando, contextualizando e atualizando um determinado tema ao longo dos anos.

Um pesquisador pode publicar um artigo em 1998, outro em 2007 e outro em 2019. Décadas depois, pode escrever um texto explicando como aquele conhecimento evoluiu, quais conclusões permaneceram válidas e o que mudou desde então.

Nesse processo, a experiência acumulada deixa de ser apenas uma informação no currículo.

Ela se transforma em memória pública do conhecimento produzido.
Cinquenta anos de estrada não podem terminar em uma lista de referências

É justamente por isso que a comunicação científica ganha um significado especial quando olhamos para uma carreira longa.

Depois de décadas de trabalho, o pesquisador acumulou muito mais do que artigos.

Acumulou problemas resolvidos.

Casos estudados.

Laudos produzidos.

Aulas ministradas.

Erros cometidos e corrigidos.

Hipóteses abandonadas.

Métodos aperfeiçoados.

Perguntas que continuam sem resposta.

Tudo isso possui valor educacional.

Transformar parte dessa experiência em textos, aulas e conteúdos técnicos significa impedir que esse conhecimento desapareça junto com a atividade profissional cotidiana.

No meu caso, depois de 50 anos de estrada, de 1975 a 2025, essa é uma das razões para continuar escrevendo.

Transformar laudo em post.
Transformar post em aula.
Transformar experiência em conhecimento compartilhável.

Porque talvez esse seja o verdadeiro sentido de uma carreira científica longa.

Não apenas acumular produção.

Mas deixar conhecimento disponível para quem vier depois.

O artigo registra uma descoberta.

O currículo registra uma trajetória.

A citação registra que alguém utilizou aquele conhecimento.

Mas a comunicação permite que novas pessoas encontrem, compreendam e continuem aquilo que foi construído.

Pontos podem desaparecer das planilhas. Citações podem perder atualidade. Cargos podem terminar.

Mas o conhecimento que foi bem explicado, documentado e colocado à disposição de outras pessoas pode continuar circulando.

E é aí que o prestígio deixa de ser apenas um número.



Transforma-se em legado.

Neurociência: por que o cérebro cria a sensação de que algumas pessoas têm mais sorte

                                                           Dr. J.R. de Almeida [ https:// x .com/dralmeidajr ][ in stagram .com/profalmeidaj...