Dr. J.R. de Almeida
[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]
Editora Priscila Gomes
Cientificamente, sorte não é uma força mística, não é destino e não é uma energia invisível que escolhe algumas pessoas para serem favorecidas pelo universo.
“Sorte” é, muitas vezes, a palavra que usamos para descrever uma combinação favorável de acontecimentos — especialmente quando eles são improváveis, inesperados ou acontecem justamente conosco.
E a ciência ajuda a desmontar esse conceito em pelo menos três camadas: estatística, comportamento e oportunidade.
A primeira começa com uma ideia simples, mas poderosa:
1. Estatística: o raro acontece
Na matemática, ganhar na loteria, encontrar uma oportunidade inesperada ou pegar vários sinais verdes consecutivos pode ser entendido como um resultado possível dentro de uma distribuição de probabilidades.
Um acontecimento improvável não é um acontecimento impossível.
É importante fazer uma distinção. A Lei dos Grandes Números não afirma que todo evento raro necessariamente acontecerá. Ela mostra que, quando um experimento aleatório é repetido muitas vezes sob condições semelhantes, a frequência observada dos resultados tende a se aproximar da probabilidade esperada.
Isso significa que, em uma população enorme e ao longo de uma quantidade gigantesca de acontecimentos, resultados extremamente improváveis para um indivíduo podem deixar de ser surpreendentes quando observados no conjunto.
Imagine milhões de pessoas realizando milhões de tentativas. Em algum lugar, alguém estará justamente no extremo da distribuição.
Essa pessoa provavelmente não dirá:
“A estatística finalmente produziu um resultado esperado.”
Ela dirá:
“Eu tive sorte.”
E é aí que nosso cérebro entra em cena.
O universo não necessariamente escolheu aquela pessoa.
A estatística simplesmente permitiu que aquele resultado acontecesse.
Nosso cérebro, entretanto, não é particularmente confortável com a aleatoriedade. Somos uma espécie extraordinariamente eficiente em procurar padrões, relações e explicações para aquilo que acontece ao nosso redor.
Essa capacidade foi extremamente importante para nossa sobrevivência. Identificar rapidamente uma relação entre acontecimentos podia significar perceber um predador, antecipar uma ameaça ou reconhecer uma fonte de alimento.
O problema é que essa mesma capacidade pode nos levar a enxergar padrões onde existe apenas coincidência.
Se você pensa em uma determinada pessoa e, alguns minutos depois, recebe uma mensagem dela, pode interpretar o episódio como uma conexão especial.
Se compra um bilhete e ganha um prêmio, pode atribuir o resultado à sua “boa fase”.
Se escolhe determinado caminho e encontra uma oportunidade inesperada, pode acreditar que “era para acontecer”.
Mas existe uma explicação menos extraordinária:
eventos independentes podem coincidir.
E, quando o acontecimento é raro e emocionalmente significativo, nossa memória tende a valorizá-lo ainda mais.
Nós lembramos da vez em que pensamos em alguém e essa pessoa telefonou.
Não lembramos das centenas de vezes em que pensamos em alguém e absolutamente nada aconteceu.
É assim que uma coincidência pode ganhar a aparência de destino.
A estatística não precisa escolher ninguém
Existe ainda outro fenômeno importante: quando há um número suficientemente grande de tentativas, resultados extremos deixam de ser matematicamente surpreendentes.
Se milhões de pessoas fazem alguma coisa, alguém terá um resultado extraordinariamente positivo.
Outra pessoa terá um resultado extraordinariamente negativo.
Uma terceira estará exatamente no meio.
A primeira pode ser chamada de sortuda.
A segunda, de azarada.
Mas ambas podem simplesmente estar ocupando posições diferentes dentro da mesma distribuição de resultados.
O erro está em olhar para o vencedor depois que o acontecimento aconteceu e imaginar que aquele resultado era, de alguma maneira, destinado a ele.
Não era necessariamente.
Ele apenas aconteceu.
E aqui começa uma distinção ainda mais interessante:
uma coisa é a sorte que acontece com você; outra é aumentar deliberadamente a quantidade de oportunidades para que coisas boas possam acontecer.
É nesse ponto que a expressão “fabricar a própria sorte” deixa de ser apenas uma metáfora motivacional e começa a encontrar uma explicação comportamental.
Você não controla a aleatoriedade.
Não controla quem vai responder ao seu e-mail.
Não controla qual projeto será aprovado.
Não controla quando surgirá uma oportunidade.
Não controla todas as circunstâncias que encontrarão você pelo caminho.
Mas pode controlar quantas portas você tenta abrir.
Pode escrever mais.
Pode estudar mais.
Pode conhecer mais pessoas.
Pode apresentar mais projetos.
Pode publicar mais.
Pode fazer mais perguntas.
Pode experimentar mais.
Pode colocar suas ideias em circulação.
E isso muda completamente a matemática da sua vida.
Você não está criando o acaso.
Está aumentando o número de situações nas quais um resultado favorável pode acontecer.
A pessoa que envia uma proposta pode receber uma resposta.
A que envia dez propostas terá mais ocasiões para receber uma.
A pessoa que publica uma ideia pode ser descoberta.
A que publica cem ideias cria muito mais pontos de contato com leitores, pesquisadores, empresas, jornalistas, instituições e potenciais colaboradores.
Isso não significa que o sucesso seja garantido.
Significa apenas que a probabilidade de encontrar uma oportunidade pode ser influenciada pelo número de oportunidades que você decide criar.
A sorte continua sendo aleatória.
Mas a exposição ao acaso pode ser uma escolha.
2. Psicologia: pessoas que se consideram sortudas podem se comportar de maneira diferente
É aqui que a história fica ainda mais interessante.
Durante anos, o psicólogo britânico Richard Wiseman estudou pessoas que se descreviam como “sortudas” e aquelas que se consideravam “azaradas”. Em seus estudos, ele procurou identificar diferenças na maneira como esses grupos percebiam e respondiam às situações cotidianas.
A conclusão mais interessante não envolve amuletos, números mágicos ou alguma capacidade sobrenatural.
Envolve comportamento e percepção.
Pessoas que se consideravam sortudas tendiam a relatar maior abertura para oportunidades, maior disposição para interagir com outras pessoas e uma maneira diferente de interpretar acontecimentos inesperados.
Em outras palavras:
talvez algumas pessoas pareçam ter mais sorte porque se colocam em mais situações nas quais a sorte pode acontecer.
Imagine duas pessoas entrando no mesmo elevador.
Uma olha para o celular durante todo o trajeto.
A outra percebe que está ao lado de alguém que trabalha em uma área que lhe interessa e começa uma conversa.
A primeira chega ao andar seguinte exatamente como entrou.
A segunda pode sair dali com uma informação, um contato, uma ideia ou uma oportunidade.
Nenhuma das duas recebeu uma bênção do universo.
Uma simplesmente criou uma interação que a outra não criou.
O mesmo pode acontecer em situações aparentemente banais.
A pessoa que presta atenção pode perceber uma palestra que a outra não viu.
Quem aceita conversar com desconhecidos pode descobrir uma oportunidade profissional.
Quem aceita um convite de última hora pode conhecer alguém importante para um projeto futuro.
Quem observa o ambiente pode perceber uma informação que estava disponível para todos, mas que poucos notaram.
A chamada “sorte” pode surgir, portanto, da combinação entre atenção, exposição, interação e oportunidade.
Não significa que pessoas extrovertidas sejam necessariamente mais sortudas. Nem que alguém precise conversar com todo mundo para ter sucesso.
O ponto é outro:
quanto maior o número de interações e situações às quais uma pessoa se expõe, maior pode ser o número de oportunidades que ela encontra.
Isso é muito diferente de acreditar em sorte como uma propriedade sobrenatural.
É comportamento.
A profecia que ajuda a produzir o próprio resultado
Existe ainda outro mecanismo psicológico interessante: a chamada profecia autorrealizável.
Quando uma pessoa espera que determinada situação tenha alguma possibilidade de dar certo, essa expectativa pode influenciar seu comportamento.
Ela pode tentar mais.
Pode insistir por mais tempo.
Pode procurar alternativas quando encontra uma dificuldade.
Pode interpretar um obstáculo como temporário.
Pode pedir ajuda.
Pode voltar a tentar.
E cada uma dessas atitudes modifica as oportunidades disponíveis.
Isso não significa que pensar positivamente faça qualquer objetivo acontecer.
Uma expectativa otimista não altera as leis da física, não garante uma promoção e certamente não transforma uma aposta perdida em uma aposta vencedora.
Mas, em determinadas situações, a expectativa pode influenciar o comportamento, e o comportamento pode influenciar os resultados.
Uma pessoa que acredita que vale a pena tentar pode realizar cinco tentativas.
Outra, convencida de que não vai funcionar, pode desistir na primeira.
Se uma delas obtiver sucesso na quinta tentativa, depois poderemos chamar o resultado de “sorte”.
Mas existe uma história comportamental por trás daquele resultado.
Ela permaneceu no jogo tempo suficiente para encontrar uma possibilidade que a outra pessoa abandonou antes de encontrar.
E existe uma diferença ainda mais importante: como interpretamos o fracasso
Talvez o aspecto mais poderoso dessa chamada “sorte psicológica” esteja na maneira como as pessoas interpretam aquilo que dá errado.
Imagine que duas pessoas estejam dirigindo e tenham um pneu furado.
O acontecimento é exatamente o mesmo.
Uma pode pensar:
“É claro. Essas coisas só acontecem comigo.”
A outra pode pensar:
“Ainda bem que aconteceu aqui, perto de uma borracharia, e não na estrada.”
O pneu furado continua furado.
A realidade objetiva não mudou.
Mas a interpretação mudou.
Essa capacidade de reinterpretar acontecimentos adversos está relacionada àquilo que a psicologia chama de reavaliação cognitiva e também dialoga com o conceito mais amplo de resiliência.
Isso não significa negar o problema.
O pneu continua precisando ser consertado.
Uma perda continua sendo uma perda.
Uma rejeição continua sendo uma rejeição.
Uma oportunidade perdida não deixa de ter sido perdida.
Resiliência não é fingir que algo ruim foi bom.
É conseguir atribuir ao acontecimento um significado que permita continuar funcionando e agir diante dele.
A diferença pode parecer pequena, mas produz consequências enormes.
Quem interpreta todo fracasso como confirmação de que “nada dá certo” pode reduzir sua disposição para tentar novamente.
Quem interpreta o mesmo fracasso como informação, experiência ou circunstância específica pode usar aquilo para ajustar a próxima tentativa.
No primeiro caso, o fracasso encerra a sequência.
No segundo, ele pode fazer parte dela.
E isso produz uma diferença cumulativa ao longo do tempo.
O mesmo acontecimento, duas histórias
É possível resumir a diferença assim:
O azarado pergunta: “Por que isso sempre acontece comigo?”
O resiliente pergunta: “O que posso fazer com o que aconteceu?”
A primeira pergunta procura uma identidade.
A segunda procura uma possibilidade de ação.
E talvez essa seja uma das razões pelas quais algumas pessoas parecem atravessar a vida encontrando mais oportunidades.
Não necessariamente porque recebam mais acontecimentos favoráveis.
Mas porque percebem mais oportunidades, criam mais interações, persistem por mais tempo e conseguem continuar em movimento depois que alguma coisa dá errado.
A sorte, nesse sentido, não precisa ser uma propriedade que algumas pessoas possuem.
Pode ser, em parte, o resultado acumulado de uma maneira diferente de olhar, agir, tentar e reagir.
E isso nos leva à terceira camada.
Porque perceber oportunidades é importante.
Criá-las é ainda mais importante.
E existe uma maneira muito concreta de aumentar a quantidade delas:
aumentar o número de vezes que você coloca alguma coisa no mundo.
É aí que a sorte começa a encontrar a estratégia.