segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Conectividade, sucessão e conservação da biodiversidade

                                                         Dr. J.R. de Almeida 

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes




Sob a ótica da Ecologia da Paisagem, o artigo evidencia que a recuperação de uma floresta não pode ser analisada de forma isolada de seu entorno. A trajetória sucessional de um fragmento depende, em diferentes graus, da configuração da paisagem e das possibilidades de intercâmbio de organismos entre os remanescentes.

A conectividade entre fragmentos pode favorecer a chegada de sementes, pólen, dispersores e outros organismos, ampliando as possibilidades de recolonização de áreas em regeneração. Quanto mais funcionalmente conectada estiver a paisagem, maiores podem ser as oportunidades de manutenção ou recuperação de processos ecológicos.

O contrário também merece atenção.

O isolamento de fragmentos pode dificultar a chegada de determinadas espécies e reduzir o fluxo de organismos entre populações. Em áreas muito isoladas, espécies importantes para determinados processos ecológicos podem apresentar dificuldade de recolonização, mesmo quando as condições locais parecem adequadas para seu estabelecimento.

Isso ajuda a explicar por que uma floresta pode permanecer durante longo período dominada por espécies pioneiras.

A ausência de espécies tardias não significa necessariamente que o ambiente seja incapaz de sustentá-las. Em determinadas situações, elas simplesmente podem não estar chegando em quantidade suficiente ou podem ter perdido os agentes necessários para sua dispersão e estabelecimento.

A questão, portanto, não é apenas o que existe dentro do fragmento, mas também o que consegue chegar até ele.

Riqueza de espécies não conta toda a história

Outro aspecto fundamental é que a riqueza de espécies, isoladamente, não é suficiente para avaliar a qualidade de uma restauração ecológica.

Duas áreas podem apresentar o mesmo número de espécies e, ainda assim, possuir diferenças significativas em composição, estrutura, diversidade funcional e capacidade de sustentar processos ecológicos.

Uma área pode conter muitas espécies, mas ser dominada por plantas generalistas ou pioneiras.

Outra pode apresentar menor riqueza numérica, mas conservar espécies características do ecossistema de referência e uma composição funcional mais próxima de uma floresta madura.

Por isso, a avaliação da restauração deve considerar não apenas quantas espécies existem, mas também quais espécies são essas, qual é sua abundância, quais funções desempenham e como interagem entre si.

A floresta é resultado das interações entre fauna e flora

A trajetória sucessional também depende das relações entre organismos.

A fauna participa da dispersão de sementes, da polinização, da herbivoria e de diferentes processos que influenciam a regeneração vegetal.

Ao mesmo tempo, a vegetação fornece alimento, abrigo e recursos para diferentes grupos animais.

Forma-se, assim, uma rede de interações.

Quando parte dessa rede é perdida, a recuperação de outros componentes pode ser dificultada.

Uma floresta pode apresentar árvores, por exemplo, mas possuir baixa diversidade de dispersores. Nesse caso, a regeneração de determinadas espécies vegetais pode ficar comprometida.

Da mesma forma, a ausência de determinados polinizadores pode interferir na reprodução de espécies que dependem de interações específicas.

A restauração ecológica, portanto, não consiste apenas em reconstruir a vegetação.

É necessário reconstruir as condições que permitem o funcionamento das relações ecológicas.

A contribuição da Biologia da Conservação

Do ponto de vista da Biologia da Conservação, a principal contribuição dessa abordagem está justamente em ampliar o conceito de biodiversidade.

Conservar não significa simplesmente manter um determinado número de espécies.

Significa também preservar composição, populações, diversidade genética, interações ecológicas e funções ambientais.

Uma floresta pode apresentar elevada riqueza de espécies e, ainda assim, estar distante da composição característica de seu ecossistema de referência.

Da mesma forma, pode possuir boa cobertura vegetal, mas apresentar perda de espécies especialistas, simplificação das interações ecológicas ou redução de funções fundamentais.

É por isso que a conservação da biodiversidade precisa considerar tanto a identidade dos organismos quanto o papel que desempenham no funcionamento do ecossistema.

Essa perspectiva também modifica a forma de avaliar projetos de restauração.

A pergunta deixa de ser apenas:

“Quantas espécies retornaram?”

E passa a ser:

“Quais espécies retornaram, quais permanecem ausentes e quais processos ecológicos foram restabelecidos?”

Essa mudança é essencial para diferenciar recuperação aparente de recuperação ecológica efetiva.

Em última análise, o artigo demonstra que uma floresta não é definida apenas pelo número de árvores ou pela quantidade de espécies presentes.

Ela é definida também pelas relações entre organismos, pela composição da comunidade, pela conectividade com a paisagem e pela capacidade de manter seus processos ecológicos ao longo do tempo.

É justamente nessa integração entre estrutura, composição, função e paisagem que se encontra um dos principais fundamentos da Ecologia da Restauração e da Biologia da Conservação.



Ecologia da Paisagem e Biologia da Conservação

                                                            Dr. J.R. de Almeida 

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes




Esta é uma das áreas mais diretamente relacionadas ao conteúdo discutido no artigo. A Ecologia da Paisagem e a Biologia da Conservação permitem compreender que a recuperação de uma floresta não depende apenas do que acontece dentro de seus limites.

Uma floresta em regeneração está inserida em uma paisagem.

Ao seu redor existem outros fragmentos florestais, áreas agrícolas, pastagens, estradas, áreas urbanizadas, rios, corpos d’água e diferentes formas de uso do solo. Essa configuração espacial influencia diretamente a capacidade de uma área degradada receber espécies, sementes, pólen e organismos provenientes de outros remanescentes.

É nesse contexto que a conectividade da paisagem assume importância central.

A floresta não se recupera sozinha

Durante a sucessão ecológica, espécies pioneiras frequentemente conseguem ocupar rapidamente áreas abertas ou perturbadas. São espécies capazes de tolerar condições ambientais mais severas e, em muitos casos, apresentam elevada capacidade de colonização.

O problema ocorre quando essa primeira etapa da sucessão se prolonga.

Uma floresta pode permanecer durante muitos anos dominada por espécies pioneiras enquanto espécies características de estágios mais avançados da sucessão chegam lentamente — ou simplesmente não chegam.

Isso acontece porque a chegada de determinadas espécies depende de processos que ultrapassam os limites do fragmento.

Uma semente precisa chegar.

Um animal dispersor precisa alcançar a área.

Um polinizador precisa encontrar recursos.

As condições ambientais precisam permitir o estabelecimento da espécie.

E, em alguns casos, é necessário que exista uma fonte próxima de propágulos.

Portanto, a distância entre os fragmentos e a qualidade da matriz que os separa podem influenciar diretamente a trajetória de regeneração.

Fragmentos remanescentes funcionam como fontes de biodiversidade

Um fragmento de floresta madura não representa apenas uma área preservada.

Ele pode funcionar como uma verdadeira fonte de propágulos, fornecendo sementes, pólen e organismos capazes de recolonizar áreas em processo de regeneração.

Esse papel é particularmente importante quando a área restaurada está próxima de remanescentes bem conservados.

A proximidade facilita a dispersão.

A presença de fauna dispersora aumenta as possibilidades de chegada de novas espécies.

E a existência de diferentes ambientes na paisagem amplia a possibilidade de manutenção de processos ecológicos.

Por outro lado, quando a paisagem está extremamente fragmentada, a distância entre os remanescentes pode dificultar a recolonização.

Nesse cenário, uma área pode possuir condições adequadas para receber determinadas espécies, mas permanecer sem elas simplesmente porque os mecanismos de dispersão foram interrompidos ou severamente reduzidos.

É uma das razões pelas quais restaurar uma floresta isoladamente pode não ser suficiente para restaurar a biodiversidade da paisagem.

A matriz também importa

Não basta olhar apenas para os fragmentos.

É necessário observar aquilo que existe entre eles.

A chamada matriz da paisagem pode facilitar ou dificultar o deslocamento de organismos.

Uma paisagem formada por diferentes usos do solo pode apresentar níveis muito distintos de permeabilidade para a fauna. Uma espécie pode atravessar determinado ambiente com relativa facilidade, enquanto outra pode evitar completamente aquela matriz.

Assim, duas florestas que possuem o mesmo tamanho podem apresentar condições ecológicas muito diferentes dependendo do contexto em que estão inseridas.

Uma pode estar conectada a outros remanescentes.

Outra pode estar completamente isolada.

A aparência das duas pode ser semelhante.

A capacidade de manter biodiversidade, entretanto, pode ser muito diferente.

Corredores ecológicos e conectividade

É nesse ponto que entram estratégias de conservação voltadas à conectividade ecológica.

Corredores, áreas de conexão, matas ciliares e outros elementos da paisagem podem favorecer o deslocamento de organismos entre fragmentos.

Isso não significa que todo corredor funcione da mesma maneira ou que a simples existência de uma faixa de vegetação garanta conectividade para todas as espécies.

A efetividade depende da qualidade do habitat, da largura e continuidade da vegetação, das características das espécies envolvidas e das condições da paisagem.

Mas o princípio é fundamental:

quanto mais funcionalmente conectada estiver uma paisagem, maiores podem ser as oportunidades de fluxo de organismos e de recolonização de áreas em recuperação.

A Biologia da Conservação amplia a pergunta

A Biologia da Conservação acrescenta outra dimensão à discussão.

Não basta perguntar se determinada espécie está presente.

É preciso perguntar se suas populações são viáveis.

Uma espécie pode aparecer ocasionalmente em um fragmento sem que isso signifique que exista uma população estável capaz de persistir no longo prazo.

Da mesma forma, uma floresta pode apresentar elevada riqueza de espécies e ainda sofrer perda gradual de biodiversidade se espécies sensíveis desaparecerem ou se determinadas funções ecológicas forem interrompidas.

Por isso, a conservação precisa considerar tamanho populacional, diversidade genética, conectividade, disponibilidade de habitat, dispersão, reprodução e dinâmica das populações.

Uma floresta pode estar verde e ainda estar isolada

Esse é um dos pontos mais importantes para compreender o conceito de floresta ecologicamente incompleta.

Uma área pode apresentar árvores, cobertura vegetal e regeneração natural, mas permanecer isolada de fontes de biodiversidade.

Nesse caso, a recuperação estrutural pode avançar mais rapidamente do que a recuperação da composição e das funções ecológicas.

A floresta fica verde.

Mas determinadas espécies continuam ausentes.

Algumas interações ecológicas permanecem interrompidas.

E certos processos podem levar muito mais tempo para se restabelecer.

Isso demonstra que o tempo de recuperação ecológica não depende apenas da idade da vegetação.

Depende também da história da área, da disponibilidade de espécies na paisagem, da conectividade e da capacidade dos organismos de retornar e se estabelecer.

Restaurar fragmentos é também restaurar a paisagem

Essa perspectiva tem consequências diretas para o planejamento ambiental.

Em vez de pensar cada área restaurada como uma ilha independente, é necessário considerar a paisagem como um sistema integrado.

Às vezes, restaurar uma pequena área estratégica entre dois grandes fragmentos pode produzir benefícios ecológicos superiores aos de restaurar uma área maior completamente isolada.

Da mesma forma, recuperar uma mata ciliar pode contribuir não apenas para a proteção do curso d’água, mas também para aumentar a conectividade entre diferentes remanescentes.

A escolha do local de restauração, portanto, pode ser tão importante quanto a quantidade de hectares restaurados.

A pergunta muda

A Ecologia da Paisagem e a Biologia da Conservação ajudam a transformar a pergunta tradicional.

Não basta perguntar:

“A floresta está se regenerando?”

É necessário perguntar:

“A paisagem está permitindo que essa floresta volte a receber e sustentar biodiversidade?”

Essa mudança de perspectiva é essencial.

Uma floresta ecologicamente completa não depende apenas de árvores crescendo.

Depende de sementes chegando, animais se deslocando, populações se reproduzindo, espécies interagindo e processos ecológicos sendo restabelecidos.

Por isso, a restauração de uma floresta não deve ser pensada apenas como recuperação de uma área.

É a reconstrução de uma parte funcional da paisagem.

E quanto mais fragmentada estiver essa paisagem, maior será o desafio de transformar uma floresta visualmente recuperada em uma floresta efetivamente integrada aos processos ecológicos que sustentam a biodiversidade.

A floresta ecologicamente incompleta no contexto das Ciências Ambientais

                                                         Dr. J.R. de Almeida 

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes




A discussão apresentada possui forte aderência às principais áreas das Ciências Ambientais e dialoga diretamente com diversos campos de atuação profissional. A distinção entre uma floresta que recuperou sua estrutura e outra que recuperou efetivamente sua composição e suas funções ecológicas ultrapassa os limites da Ecologia da Restauração e alcança questões relacionadas ao planejamento ambiental, à conservação da biodiversidade, à recuperação de áreas degradadas, ao licenciamento, à gestão territorial e à avaliação de impactos ambientais.

Na prática profissional, essa distinção é fundamental.

Um projeto de recuperação ambiental não pode ser considerado bem-sucedido apenas porque determinada área apresenta cobertura vegetal novamente. É necessário avaliar o que foi recuperado, em que grau, em quanto tempo e com quais evidências ecológicas.

Essa abordagem aproxima a Ecologia da Restauração de ferramentas utilizadas em diferentes áreas das Ciências Ambientais.

Na avaliação de impactos ambientais, por exemplo, compreender a estrutura e o funcionamento de um ecossistema permite estabelecer uma linha de base mais consistente e identificar quais componentes ambientais foram efetivamente alterados por determinada intervenção.

Na gestão e conservação da biodiversidade, a análise da composição de espécies e das interações ecológicas ajuda a identificar se uma área aparentemente recuperada mantém condições adequadas para sustentar comunidades biológicas diversificadas.

Na recuperação de áreas degradadas, a discussão é ainda mais direta. A escolha das espécies, o planejamento da restauração, o controle de fatores de degradação e o acompanhamento da regeneração precisam considerar não apenas a cobertura vegetal, mas também a trajetória ecológica da área.

No licenciamento ambiental, essa compreensão contribui para estabelecer medidas de recuperação e monitoramento mais adequadas, evitando que indicadores exclusivamente visuais sejam utilizados como prova suficiente de recuperação ambiental.

Na perícia e na avaliação de danos ambientais, a diferença entre estrutura e função também pode ser decisiva. Uma área pode apresentar vegetação após determinado período, mas isso não significa necessariamente que todas as funções ecológicas anteriormente existentes tenham sido restabelecidas. A caracterização do dano, portanto, precisa considerar não apenas a área coberta por vegetação, mas também as alterações na composição, nas funções e nos processos ecológicos.

Já no planejamento territorial, a questão assume uma dimensão ainda maior. A conservação de remanescentes naturais e a conectividade entre fragmentos podem determinar a capacidade de uma paisagem manter processos ecológicos, permitir deslocamento da fauna e favorecer a regeneração natural.

Isso demonstra que a restauração não deve ser pensada apenas no nível de uma propriedade ou de um fragmento isolado.

É necessário considerar a paisagem.

Uma floresta pode apresentar boa recuperação local e, ainda assim, permanecer ecologicamente limitada se estiver completamente isolada de outros remanescentes, sem fluxo adequado de organismos e propágulos.

Por isso, a atuação do profissional das Ciências Ambientais exige uma visão integrada.

É necessário compreender a ecologia do sistema, mas também conhecer legislação, planejamento, gestão territorial, indicadores ambientais, técnicas de monitoramento, avaliação de impactos e instrumentos de tomada de decisão.

Essa integração é justamente uma das características mais importantes das Ciências Ambientais.

O conceito de floresta ecologicamente incompleta também possui uma consequência prática: ele impede que a recuperação seja reduzida a números fáceis de apresentar, como quantidade de mudas plantadas, hectares revegetados ou percentual de cobertura vegetal.

Esses indicadores são importantes.

Mas não são suficientes.

A pergunta profissional precisa ser mais ampla:

A área recuperou sua capacidade de funcionar como ecossistema?

Se ainda não, quais componentes permanecem ausentes?

Quais processos ecológicos precisam ser restabelecidos?

Quais fatores continuam impedindo a recuperação?

E quais indicadores permitirão demonstrar, de maneira tecnicamente defensável, que houve evolução?

É nesse ponto que ciência e gestão ambiental se encontram.

A restauração ecológica deixa de ser apenas uma intervenção física sobre o território e passa a ser compreendida como um processo de recuperação da integridade ecológica, acompanhado por evidências, monitoramento e avaliação contínua.

Para o profissional das Ciências Ambientais, essa perspectiva representa uma mudança importante de paradigma:

não basta fazer uma área parecer recuperada; é preciso demonstrar que ela está recuperando suas funções ecológicas e sua capacidade de persistir ao longo do tempo.

Essa diferença pode determinar a qualidade de um projeto de restauração, a consistência de uma avaliação ambiental e, em última análise, a efetividade da conservação dos ecossistemas.


Uma floresta ecologicamente incompleta: quando a regeneração não significa restauração

                                                          Dr. J.R. de Almeida 

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                                                                                  Editora Priscila Gomes





No contexto das Ciências Ambientais, a expressão “uma floresta ecologicamente incompleta” ajuda a compreender um dos desafios centrais da Ecologia da Restauração: distinguir uma floresta que voltou a apresentar vegetação de uma floresta que efetivamente recuperou sua composição, estrutura, funcionamento e capacidade de sustentar processos ecológicos.

O texto Uma floresta ecologicamente incompleta, publicado por J. R. de Almeida, aborda justamente essa diferença. Seu argumento central é simples, mas cientificamente importante: a aparência de uma floresta regenerada não constitui, por si só, evidência de que o ecossistema tenha recuperado todas as características de uma floresta madura.

Uma área pode, depois de anos de abandono ou de intervenção de restauração, apresentar árvores, cobertura vegetal, sombra e até uma aparência muito semelhante à de uma floresta natural.

Mas o que existe por baixo dessa aparência?

Quais espécies estão presentes?

Quais desapareceram?

Como estão distribuídas?

Existe regeneração natural?

Há indivíduos de diferentes classes de tamanho e idade?

As espécies responsáveis por funções ecológicas importantes conseguiram retornar?

Os animais dispersores de sementes voltaram?

Os polinizadores estão presentes?

A ciclagem de nutrientes foi restabelecida?

O solo recuperou suas características?

A floresta consegue se regenerar sem intervenção humana contínua?

Essas perguntas mostram por que estrutura não é sinônimo de função.

Uma floresta pode parecer completa e ainda ser ecologicamente incompleta

A recuperação da cobertura vegetal é um indicador importante.

Mas é apenas um dos componentes da recuperação ecológica.

Uma área pode apresentar elevada cobertura de copa e grande quantidade de biomassa, mas possuir uma composição de espécies muito diferente daquela encontrada em uma floresta madura de referência.

Pode haver predominância de poucas espécies pioneiras, ausência de espécies tardias, baixa diversidade funcional e pouca capacidade de regeneração de determinados grupos vegetais.

Visualmente, a floresta parece recuperada.

Ecologicamente, entretanto, pode permanecer em uma trajetória diferente daquela esperada para o ecossistema de referência.

É essa diferença que torna tão importante o conceito de floresta ecologicamente incompleta.

Estrutura, composição e função

Na Ecologia da Restauração, a recuperação de um ecossistema pode ser analisada por diferentes dimensões.

A primeira é a estrutura.

Inclui características como cobertura vegetal, biomassa, estratificação da vegetação, densidade e distribuição dos indivíduos.

A segunda é a composição.

Quais espécies estão presentes? Em que proporção? Existem espécies características do ecossistema original? Há espécies invasoras ou oportunistas ocupando espaços que antes seriam utilizados por outras espécies?

A terceira dimensão é a função ecológica.

É nesse ponto que a análise se torna ainda mais profunda.

Uma floresta funciona por meio de uma rede de processos: produção primária, decomposição, ciclagem de nutrientes, dispersão de sementes, polinização, relações entre plantas e animais, formação e manutenção do solo, armazenamento de carbono e fluxo de energia.

Uma floresta restaurada pode recuperar parte da estrutura antes de recuperar plenamente essas funções.

E algumas funções podem levar décadas para se aproximar das condições de uma floresta madura.

O tempo é um componente da restauração

Outro aspecto fundamental é que restauração ecológica não é sinônimo de recuperação instantânea.

Ecossistemas florestais são sistemas dinâmicos.

Uma árvore jovem pode crescer relativamente rápido, mas uma floresta madura é resultado da interação entre organismos, solo, clima, água, fauna e processos ecológicos desenvolvidos ao longo de períodos muito mais longos.

Por isso, plantar árvores não significa automaticamente reconstruir uma floresta.

O plantio pode ser uma ferramenta de restauração.

Mas a restauração propriamente dita envolve a recuperação progressiva das condições que permitem ao ecossistema manter sua trajetória ecológica.

Em determinadas situações, a intervenção humana inicial pode ser essencial.

Depois, porém, uma pergunta se torna decisiva:

o ecossistema consegue continuar se reorganizando e se regenerando por seus próprios processos ecológicos?

Se a resposta for não, existe uma indicação de que a recuperação ainda está incompleta.

A floresta precisa ser avaliada além da fotografia

Esse é talvez o principal ensinamento para as Ciências Ambientais.

Uma fotografia mostra a aparência da floresta.

Não mostra sua diversidade genética.

Não revela necessariamente a composição florística.

Não permite avaliar sozinha a qualidade do solo.

Não identifica toda a fauna associada.

Não demonstra a eficiência da dispersão de sementes.

Não informa se a regeneração natural está ocorrendo.

E tampouco revela, por si só, se os processos ecológicos foram restabelecidos.

Por isso, avaliações de restauração precisam utilizar indicadores ecológicos múltiplos, definidos de acordo com o tipo de ecossistema, o histórico de degradação e os objetivos do projeto.

A comparação com áreas de referência também é importante.

A pergunta não deve ser simplesmente:

“A área ficou verde?”

Deve ser:

“Quais características do ecossistema de referência foram recuperadas, quais permanecem ausentes e qual é a trajetória ecológica da área?”

Restaurar não é apenas plantar

Essa distinção também ajuda a superar uma visão simplificada da restauração ambiental.

Plantar milhares de mudas pode produzir uma paisagem visualmente impressionante.

Mas uma restauração bem-sucedida precisa considerar quais espécies foram utilizadas, sua origem, diversidade, distribuição, capacidade de regeneração, interação com a fauna e adequação às condições ambientais locais.

Em alguns casos, a regeneração natural pode ser mais adequada do que o plantio intensivo.

Em outros, o plantio pode ser indispensável.

Não existe uma receita única.

A estratégia depende do grau de degradação, da disponibilidade de propágulos, das condições do solo, do histórico de uso da área, da fragmentação da paisagem e da capacidade de recuperação natural do ecossistema.

A floresta madura é mais do que um conjunto de árvores

Esse é o ponto central.

Uma floresta não pode ser compreendida apenas pela quantidade de árvores que possui.

Ela é uma rede de relações ecológicas.

Árvores dependem de polinizadores.

Plantas dependem de dispersores.

Organismos do solo participam da decomposição e da ciclagem de nutrientes.

A fauna interfere na regeneração.

A vegetação modifica o microclima.

As raízes interagem com o solo e com a água.

A matéria orgânica retorna ao sistema.

O carbono é incorporado e armazenado.

É essa rede de processos que transforma uma área coberta por árvores em um ecossistema florestal funcional.

Por isso, uma floresta pode estar estruturalmente recuperada, mas ecologicamente incompleta.

O verdadeiro indicador de sucesso

A restauração ecológica não deveria ser avaliada apenas pelo que conseguimos construir.

Também precisa ser avaliada pelo que conseguimos reestabelecer.

Uma área realmente recuperada não é necessariamente aquela que mais se parece com uma fotografia de uma floresta madura.

É aquela que demonstra capacidade crescente de manter sua composição, suas interações e seus processos ecológicos dentro de uma trajetória compatível com o ecossistema de referência.

Essa perspectiva muda a pergunta.

Em vez de perguntar:

“Quantas árvores foram plantadas?”

é preciso perguntar:

“O que voltou a funcionar?”

E, talvez mais importante:

“A floresta está recuperando a capacidade de continuar se restaurando sem depender permanentemente da intervenção humana?”

É nesse ponto que a Ecologia da Restauração deixa de ser apenas uma técnica de plantio e passa a ser compreendida como uma ciência voltada à recuperação da integridade ecológica.

Porque uma floresta pode voltar a ser verde muito antes de voltar a ser, de fato, uma floresta.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Por que o manguezal de Aracaju vale mais do que se imagina?

                                                           Dr. J.R. de Almeida 

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes



Mangue não é só caranguejo.

Essa talvez seja uma das maiores dificuldades para compreender o verdadeiro valor desse ecossistema.

Quem olha para um manguezal e enxerga apenas lama, raízes e caranguejos pode não perceber que, por trás daquela paisagem aparentemente simples, existe uma infraestrutura natural realizando funções que, se precisassem ser substituídas integralmente por obras e serviços humanos, poderiam representar custos muito elevados para a sociedade.

O manguezal funciona como infraestrutura ambiental.

Retém sedimentos, participa da ciclagem de nutrientes, oferece abrigo e áreas de alimentação e desenvolvimento para diversas espécies, contribui para a estabilidade das zonas costeiras e armazena grandes quantidades de carbono nos sedimentos e na biomassa.

E existe uma dimensão particularmente importante para Aracaju:

o manguezal presta serviços ambientais que a cidade utiliza todos os dias, mesmo quando não percebe que está utilizando.

Um filtro natural — mas não uma ETE

Uma das funções atribuídas aos manguezais é a retenção e transformação de nutrientes e outros materiais transportados pela água.

Isso não significa dizer que um hectare de manguezal possa ser simplesmente comparado a uma estação de tratamento de esgoto convencional.

Uma ETE possui processos, equipamentos, operadores e parâmetros específicos de tratamento. O manguezal é um ecossistema complexo, cuja capacidade de assimilação depende das condições ambientais, da carga recebida, da hidrodinâmica, do tipo de contaminante e de muitos outros fatores.

Mas a comparação ajuda a revelar uma questão econômica importante:

quanto custaria substituir artificialmente parte das funções ambientais que hoje são realizadas gratuitamente pelo ecossistema?

Essa é uma pergunta de valoração.

E ela muda completamente a discussão.

Uma barreira natural diante de um território vulnerável

Manguezais também desempenham funções relacionadas à proteção costeira.

Sua vegetação e seus sedimentos podem contribuir para dissipar energia, reter sedimentos e reduzir determinados processos erosivos e impactos associados a eventos extremos.

Mas é importante evitar outra simplificação: o manguezal não “segura sozinho” enchentes provocadas pelo rio Sergipe ou pelo Vaza-Barris.

As inundações em Aracaju resultam da interação entre chuva, maré, nível dos rios, drenagem urbana, impermeabilização do solo, topografia, ocupação territorial e outras variáveis.

Ainda assim, eliminar ambientes naturais que ajudam a amortecer essas pressões significa reduzir a resiliência do território.

É como retirar uma camada de proteção de uma cidade que já possui vulnerabilidades naturais e urbanas.

Carbono azul: um patrimônio que permanece escondido no sedimento

Existe ainda outro valor que durante muito tempo recebeu pouca atenção.

O carbono azul.

Manguezais estão entre os ecossistemas costeiros com grande capacidade de armazenar carbono, sobretudo porque parte significativa desse estoque permanece acumulada nos sedimentos.

Por isso, a degradação de um manguezal não representa apenas a perda de vegetação.

Dependendo da natureza e da intensidade da intervenção, a alteração do solo e dos sedimentos pode comprometer estoques de carbono que foram acumulados ao longo de muitos anos.

É justamente por isso que estimativas de emissão associadas à destruição de manguezais precisam considerar biomassa, raízes, solo e sedimentos, e não apenas a vegetação visível.

O número final pode ser expressivo.

Mas precisa ser calculado para a área efetivamente afetada.

O mangue é também um berçário

Talvez essa seja a função mais fácil de compreender.

Manguezais e estuários oferecem condições importantes para alimentação, abrigo, reprodução ou desenvolvimento de numerosas espécies.

Peixes, crustáceos e outros organismos utilizam esses ambientes em diferentes fases do ciclo de vida.

Isso significa que a degradação do manguezal pode produzir consequências que ultrapassam os limites físicos da área ocupada.

O pescador pode estar quilômetros distante do ponto onde ocorreu a degradação.

Mas pode depender, direta ou indiretamente, das funções ecológicas daquele estuário.

Por isso, percentuais como “80% da pesca nasce no mangue” não devem ser utilizados como regra geral sem uma pesquisa específica que demonstre essa proporção para a região analisada.

A questão científica mais importante é outra:

quanto da produção pesqueira regional depende das funções desempenhadas pelos manguezais e estuários?

Essa dependência pode — e deve — ser investigada.

Quando o esgoto chega ao mangue, o problema vai muito além da água suja

É aqui que todas essas funções se conectam.

Quando o esgoto doméstico é lançado sem tratamento adequado no ambiente, não ocorre simplesmente uma alteração estética da água.

Dependendo da carga e das características do efluente, podem ocorrer alterações de oxigênio dissolvido, aumento de nutrientes, mudanças na qualidade da água, contaminação microbiológica e impactos sobre organismos aquáticos.

E esses efeitos podem repercutir sobre toda a cadeia ecológica.

Não é apenas água suja.

É a possibilidade de comprometer uma sequência inteira de funções ambientais.

O problema, portanto, não deveria ser apresentado apenas como falta de educação ambiental.

Existe uma questão anterior:

quanto custa o dano?


De “precisa de educação ambiental” para “quanto custa o dano?”

Durante décadas de atuação acadêmica na área de Avaliação de Impacto Ambiental, uma das grandes lições é que diagnosticar o problema não é suficiente.

É necessário dimensioná-lo.

Identificar a degradação é o primeiro passo.

Demonstrar sua extensão é o segundo.

Estabelecer tecnicamente os impactos é o terceiro.

E, quando cabível, valorar economicamente as perdas e os custos de recuperação permite levar a discussão para outro nível.

É nesse ponto que métodos de valoração ambiental podem ser utilizados.

Uma estrutura conceitual bastante conhecida parte da ideia de Valor Econômico Total, que pode incorporar diferentes componentes do valor ambiental, incluindo valores de uso direto, uso indireto, opção e existência.

Aplicado a um caso como o de Aracaju, o raciocínio pode ser traduzido em perguntas concretas.

Uso indireto

Quanto custaria substituir as funções ambientais que o manguezal desempenha?

Qual seria o custo de obras e serviços necessários para reproduzir, ainda que parcialmente, funções relacionadas à retenção de sedimentos, proteção costeira, manutenção da qualidade ambiental e suporte aos processos ecológicos?

E quanto custaria recuperar uma área que perdeu essas funções?

Valor de opção

O que a sociedade perde quando elimina possibilidades futuras?

Uma área de manguezal preservada mantém possibilidades de uso sustentável, pesquisa científica, turismo de base comunitária, educação ambiental, pesca artesanal e outros benefícios futuros.

Quando o ecossistema é destruído, essas opções podem desaparecer ou se tornar mais caras para recuperar.

Valor de existência

Existe ainda uma dimensão que não depende de alguém utilizar diretamente o manguezal.

Quanto vale saber que aquele ecossistema continua existindo?

Esse é o chamado valor de existência.

Ele reconhece que a sociedade pode atribuir valor à conservação de uma espécie, de um ecossistema ou de um patrimônio natural mesmo quando não existe um benefício econômico imediato e diretamente mensurável.

E então o discurso muda

Quando o problema é apresentado apenas como degradação ambiental, alguém pode responder:

“Precisamos fazer educação ambiental.”

Educação ambiental é importante.

Mas não resolve, sozinha, uma ocupação irregular.

Não trata esgoto.

Não recupera sedimento contaminado.

Não recompõe vegetação perdida.

Não dimensiona passivo ambiental.

E não calcula o custo da reparação.

Quando a avaliação ambiental é acompanhada de perícia, diagnóstico, quantificação e valoração, a pergunta muda.

Deixa de ser apenas:

“Como conscientizar as pessoas?”

E passa a ser:

“Qual foi o dano, quem foi afetado, quais funções ambientais foram perdidas, quanto custa recuperar e quem deve responder por isso?”

Essa mudança é fundamental.

Porque o meio ambiente não é apenas uma questão de percepção.

É também patrimônio, serviço ecossistêmico, infraestrutura natural e, quando ocorre degradação, pode representar um passivo que precisa ser tecnicamente dimensionado.

No caso de Aracaju, a pergunta que precisa sair do campo do discurso e entrar no campo da avaliação é simples:

quanto vale o manguezal que ainda existe — e quanto custará para a sociedade recuperar aquilo que já foi perdido?

O que encontramos em campo?

                                                              Dr. J.R. de Almeida 

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes



Não foi opinião. Foi constatação em campo.

Nas áreas avaliadas, foram identificadas ocupações irregulares sobre ambientes de manguezal em diferentes pontos de Aracaju, Barra dos Coqueiros, São Cristóvão e Nossa Senhora do Socorro.

Em locais onde o manguezal desempenhava funções ecológicas importantes, incluindo a oferta de abrigo e áreas de desenvolvimento para espécies aquáticas e organismos associados ao estuário, hoje existem moradias e ocupações sem infraestrutura adequada de saneamento.

O problema não está apenas na ocupação.

Está também no que chega ao ambiente depois que a ocupação acontece.

Foram observados pontos com lançamento de esgoto doméstico sem tratamento diretamente no ambiente, além de resíduos sólidos acumulados em áreas de mangue e margens de corpos d'água.

Em determinados trechos, a infraestrutura de esgotamento sanitário existente não se mostra suficiente para impedir que efluentes alcancem diretamente rios, canais e áreas estuarinas. Quando o esgoto não é coletado e encaminhado adequadamente para tratamento, o ambiente receptor passa a receber uma carga que não deveria estar ali.

O resultado pode ser observado no próprio território: água alterada, resíduos acumulados, vegetação pressionada e perda progressiva das condições ambientais necessárias ao funcionamento do ecossistema.

Mas existe outro problema, menos visível e igualmente importante: a percepção sobre o manguezal.

Em muitos locais, o mangue ainda é tratado como “mato”, “lama” ou “terreno baldio”.

Essa percepção ajuda a explicar por que determinadas áreas ambientalmente sensíveis acabam sendo aterradas, ocupadas, utilizadas como pontos de descarte de resíduos ou incorporadas informalmente à expansão urbana.

O problema é que o manguezal não é terreno sem função.

É um ecossistema protegido pela legislação ambiental e, nas situações previstas em lei, enquadrado como Área de Preservação Permanente (APP).

Isso significa que sua importância não depende da aparência do local.

Uma área de lama, raízes expostas e vegetação adaptada à salinidade pode estar desempenhando funções ecológicas fundamentais para todo o sistema estuarino.

Ali podem existir áreas de abrigo, alimentação, reprodução e desenvolvimento de organismos que sustentam cadeias ecológicas e atividades pesqueiras.

Quando esse ambiente é aterrado, ocupado ou contaminado, não se perde apenas uma paisagem.

Perdem-se funções ecológicas.

E quando o processo ocorre diariamente, em diferentes pontos do território, o dano deixa de ser percebido como um episódio isolado e passa a representar uma pressão contínua sobre o ecossistema.

É justamente por isso que a avaliação ambiental precisa ir além da fotografia do problema.

É necessário identificar onde ocorreu a ocupação, qual área foi afetada, quais funções ambientais foram comprometidas, quais são as fontes de degradação, qual a possibilidade de recuperação e quais medidas podem interromper o processo.

O que foi encontrado em campo mostra uma realidade que muitas vezes permanece invisível para quem passa pelas áreas urbanizadas:

onde alguns enxergam apenas lama e vegetação, existe um sistema ambiental complexo — e protegido — que continua prestando serviços essenciais à região.

A questão, portanto, não é se o manguezal tem valor.

A questão é quanto tempo ainda será possível degradá-lo antes que determinadas funções ambientais se tornem muito mais difíceis — ou mais caras — de recuperar.

Aracaju está destruindo um de seus principais escudos naturais contra enchentes: o manguezal — e o custo pode ser calculado

                                                          Dr. J.R. de Almeida 

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes




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Tags: Aracaju, Manguezal, Avaliação de Impacto Ambiental, Perícia Ambiental, Valoração de Danos, Esgoto, MP Sergipe

Você sabia que Aracaju cresceu sobre uma planície costeira onde os manguezais desempenham funções ambientais essenciais para a proteção da costa, a retenção de sedimentos, a manutenção da biodiversidade e a redução da vulnerabilidade a inundações e eventos extremos?

E que parte desse patrimônio natural vem sendo pressionada justamente pelo processo de urbanização, pela ocupação de áreas ambientalmente sensíveis, pelo lançamento inadequado de esgoto e pelo descarte de resíduos?

O problema não é apenas paisagístico.

É ambiental, urbano, sanitário e econômico.

E existe uma pergunta que precisa ser feita:

quanto custa para uma cidade destruir, pouco a pouco, uma infraestrutura natural que levou décadas para se formar?

O manguezal não é um terreno vazio

Durante muito tempo, áreas de mangue foram tratadas como espaços disponíveis para ocupação.

Lama.

Mato.

Área alagada.

Terreno sem utilização.

Essa percepção está equivocada.

O manguezal é um ecossistema costeiro altamente especializado, situado na interface entre ambientes terrestres e aquáticos sob influência das marés. Nele ocorrem processos ecológicos fundamentais para a manutenção de espécies, circulação de nutrientes, retenção de sedimentos e funcionamento dos estuários.

Também existem serviços ecossistêmicos relacionados à proteção da costa, à redução da vulnerabilidade diante de eventos extremos, à produção pesqueira e ao armazenamento de carbono.

Em outras palavras:

o manguezal presta serviços que a cidade teria dificuldade e alto custo para substituir integralmente por estruturas artificiais.

Isso não significa que o manguezal seja uma barreira capaz de impedir sozinho qualquer enchente.

A dinâmica das inundações urbanas envolve chuva, maré, drenagem, impermeabilização do solo, topografia, ocupação territorial, canais, rios e infraestrutura.

Mas significa que destruir áreas de manguezal pode retirar do território uma parte importante de sua capacidade natural de responder às pressões costeiras.

Aracaju já apresenta sinais claros de pressão sobre esses ambientes

A própria documentação ambiental produzida para Aracaju registra uma longa história de alteração dos espaços naturais.

Relatório ambiental do município aponta que os manguezais urbanos foram progressivamente reduzidos e pressionados por aterros, construções e outras formas de ocupação. O documento também registra impactos associados ao acúmulo de lixo e ao lançamento de dejetos de esgotamento sanitário em corpos hídricos.

Estudos acadêmicos específicos sobre a região de Aracaju chegaram a conclusões semelhantes, relacionando a expansão urbana, as ocupações irregulares, o despejo de esgoto doméstico e o descarte de lixo à degradação dos manguezais.

E o problema não pertence apenas ao passado.

Em maio de 2026, a Prefeitura de Aracaju informou ter identificado, durante fiscalização no manguezal da Coroa do Meio, sinais de degradação da vegetação e da fauna, incluindo supressão não autorizada e despejo de esgoto.

Isso demonstra que a pressão continua sendo um problema atual.

O crescimento urbano tem um preço

Aracaju não cresceu em um território ambientalmente neutro.

A cidade se desenvolveu sobre uma planície costeira marcada por ambientes naturalmente suscetíveis a alagamentos.

Estudo sobre os riscos de alagamento na planície costeira de Aracaju identificou níveis elevados de risco em grande parte dessa área, associados tanto às características naturais do território quanto às alterações provocadas pela ocupação urbana, impermeabilização do solo e limitações da infraestrutura de drenagem.

Isso é fundamental para compreender o problema.

Quando uma área naturalmente úmida é aterrada, impermeabilizada ou ocupada, não desaparece apenas uma vegetação.

Modifica-se o funcionamento do território.

A água precisa encontrar outro caminho.

A drenagem precisa suportar uma nova demanda.

O solo perde capacidade de infiltração.

Canais e corpos d'água passam a receber volumes diferentes.

E o sistema natural deixa de desempenhar parte das funções que exercia antes da urbanização.

O risco, portanto, não é produzido exclusivamente pelo manguezal.

Ele resulta da interação entre características naturais, ocupação do território e infraestrutura urbana.

Quando o esgoto chega ao manguezal

Mas existe outro problema ainda mais grave.

O esgoto.

O saneamento deveria estabelecer uma sequência relativamente simples:

coleta → transporte → tratamento → disposição adequada.

Quando essa cadeia falha, o ambiente passa a receber aquilo que deveria ter sido tratado pela infraestrutura urbana.

O manguezal pode então receber matéria orgânica, nutrientes, microrganismos e outros contaminantes presentes nos efluentes domésticos.

Dependendo da quantidade lançada, das características do efluente e da capacidade de assimilação do ambiente receptor, podem ocorrer alterações na qualidade da água, redução do oxigênio dissolvido, enriquecimento excessivo por nutrientes e impactos sobre comunidades aquáticas.

O problema deixa de ser apenas sanitário.

Torna-se ambiental.

E quando o lançamento ocorre continuamente, o impacto deixa de ser um evento isolado e passa a fazer parte de um processo cumulativo de degradação.

O projeto que colocou o problema no território

No projeto “Avaliação de Impactos, Passivos e Danos Ambientais na Região de Aracaju”, publicado sob o DOI 10.22533/at.ed.9212322124, a discussão foi construída a partir da relação entre expansão urbana, infraestrutura precária e degradação dos manguezais.

O trabalho identificou problemas relacionados a ocupações irregulares, despejo de esgoto doméstico, resíduos e precariedade da infraestrutura de saneamento na região de Aracaju.

Esse tipo de estudo é importante porque desloca a discussão do campo da opinião para o campo da avaliação ambiental.

Não basta afirmar que existe degradação.

É preciso identificar:

onde ocorreu;

qual área foi afetada;

qual agente provocou a alteração;

quais funções ambientais foram comprometidas;

qual é a extensão do impacto;

se existe possibilidade de recuperação;

quanto tempo a recuperação pode exigir;

quais medidas são tecnicamente viáveis;

e, finalmente,

quanto custa recuperar o que foi degradado.

É aqui que entra a perícia ambiental

Imagine duas situações.

Na primeira, uma área de manguezal é parcialmente degradada, mas ainda conserva sua estrutura ecológica e apresenta possibilidade significativa de recuperação.

Na segunda, a área foi aterrada, ocupada, teve sua drenagem alterada, perdeu vegetação e recebeu lançamentos de efluentes durante anos.

Os dois casos não podem receber o mesmo diagnóstico.

O dano ambiental precisa ser caracterizado e dimensionado.

É exatamente aí que entram instrumentos como avaliação de impacto ambiental, diagnóstico de passivos, perícia ambiental, recuperação de áreas degradadas e valoração de danos.

A valoração não significa simplesmente colocar uma etiqueta de preço em uma árvore ou em um hectare de manguezal.

Significa estimar, por métodos tecnicamente justificáveis, a magnitude das perdas ambientais e os custos associados à recuperação, restauração, compensação ou reparação, conforme o caso.

O objetivo é transformar uma perda ambiental abstrata em uma questão que possa ser analisada tecnicamente.

O custo que não aparece na obra

Existe uma característica particular do dano ambiental.

O custo geralmente aparece depois.

Primeiro vem o aterro.

Depois a construção.

Depois a ocupação.

Depois o lançamento de esgoto.

Depois o descarte de resíduos.

E somente posteriormente surgem os custos relacionados à drenagem, recuperação ambiental, fiscalização, remoção de resíduos, recuperação de áreas degradadas ou mitigação de riscos.

É uma espécie de transferência de custos.

O benefício da ocupação pode ser privado ou imediato; parte do custo ambiental pode ser coletivo e aparecer anos depois.

Esse é um dos motivos pelos quais a preservação da infraestrutura natural precisa ser considerada no planejamento urbano.

O manguezal também armazena carbono

Existe ainda uma dimensão que ganhou enorme importância diante das mudanças climáticas.

Os manguezais são importantes estoques de carbono, especialmente quando se considera não apenas a vegetação acima do solo, mas também a biomassa subterrânea e os sedimentos.

O Atlas dos Manguezais do Brasil destaca justamente essa capacidade de armazenamento de carbono e o papel desses ecossistemas na redução da vulnerabilidade das zonas costeiras diante de mudanças climáticas, tempestades, eventos extremos, inundações e processos erosivos.

Por isso, destruir um manguezal não representa apenas perder árvores.

Pode significar perder estoques de carbono, habitat, biodiversidade, capacidade de retenção de sedimentos e funções de proteção costeira.

E, quando o solo é alterado ou removido, a discussão sobre carbono se torna ainda mais complexa, porque parte importante desse estoque está justamente associada ao sedimento.

A cidade precisa parar de enxergar o mangue como sobra urbana

Talvez essa seja a questão central.

Enquanto o manguezal for tratado como uma sobra entre bairros, canais e empreendimentos, sua destruição continuará parecendo uma consequência inevitável do crescimento urbano.

Mas a lógica precisa ser invertida.

O manguezal não é aquilo que sobrou depois que a cidade cresceu.

É parte da infraestrutura ambiental sobre a qual a cidade está inserida.

E infraestrutura precisa ser planejada.

Precisa ser monitorada.

Precisa ser protegida.

Precisa ter seu valor reconhecido.

Aracaju já possui iniciativas de monitoramento e recuperação desses ambientes. Em 2026, por exemplo, a Prefeitura informou estar realizando mapeamento de manguezais urbanos e ações de recuperação em áreas impactadas pela expansão urbana, como Lamarão e Coroa do Meio.

Essas ações são importantes porque mostram que o problema pode ser enfrentado.

Mas recuperação não deve substituir prevenção.

A pergunta que deveria orientar o planejamento

Quanto custa preservar um hectare de manguezal?

A pergunta é importante.

Mas existe outra ainda mais importante:

quanto custa perder esse hectare?

Quanto custa recuperar o solo?

Quanto custa restaurar a vegetação?

Quanto custa recuperar a drenagem?

Quanto custa recuperar a qualidade da água?

Quanto custa recompor habitats?

Quanto custa recuperar funções ecológicas que levaram décadas para se estabelecer?

E quanto custa para a cidade substituir artificialmente aquilo que o ecossistema fazia gratuitamente?

Essas perguntas transformam o manguezal de uma questão meramente ambiental em uma questão de economia urbana, infraestrutura, saúde pública, planejamento territorial e segurança climática.

O manguezal não envia uma conta.

Mas a degradação produz custos.

E esses custos acabam aparecendo em outros lugares: na drenagem, na recuperação ambiental, na saúde, na fiscalização, na perda de biodiversidade, na vulnerabilidade costeira e nos recursos públicos necessários para reparar aquilo que poderia ter sido preservado.

A verdadeira pergunta não é quanto vale o manguezal depois que ele foi destruído.

É quanto vale mantê-lo funcionando antes que seja tarde demais.

Porque uma cidade inteligente não é aquela que ocupa todo espaço disponível.

É aquela que sabe reconhecer quais espaços não podem ser ocupados sem comprometer o funcionamento do próprio território.


Conectividade, sucessão e conservação da biodiversidade

                                                          Dr. J.R. de Almeida  [ https:// x .com/dralmeidajr ][ in stagram .com/profalmeidaj...