Dr. J.R. de Almeida
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Editora Priscila Gomes
Quando alguém olha para um manguezal, pode enxergar apenas lama, raízes expostas, água escura e caranguejos.
Mas essa percepção esconde uma realidade econômica e ecológica muito maior.
Mangue não é apenas habitat para caranguejo. É infraestrutura natural.
E, ao contrário de uma obra convencional, essa infraestrutura trabalha continuamente, sem férias, sem combustível e sem precisar ser acionada por um botão.
Ela filtra, armazena, protege, produz e conecta.
Um sistema natural que ajuda a melhorar a qualidade da água
Manguezais conseguem reter sedimentos e participar de processos biogeoquímicos que transformam e armazenam nutrientes e matéria orgânica.
Isso não significa que um manguezal possa substituir uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), nem que seja correto lançar esgoto nele porque “a natureza dá conta”.
É justamente o contrário.
Manguezal não é estação de tratamento de esgoto.
Sua capacidade ecológica de retenção e transformação de determinados contaminantes possui limites. Quando a carga de poluentes ultrapassa a capacidade de assimilação do sistema, o que era uma função ecológica pode transformar-se em degradação ambiental.
Por isso, qualquer tentativa de atribuir um valor econômico a essa função precisa considerar as características do ambiente, a carga recebida, a qualidade da água, a área envolvida e o serviço ecológico efetivamente prestado.
O valor de um hectare de manguezal não é uma cifra universal.
É uma função do território.
Uma barreira natural em uma cidade costeira
Aracaju está inserida em um território fortemente influenciado pela dinâmica dos rios, das marés e dos ambientes estuarinos.
Nesse contexto, manguezais e áreas úmidas podem desempenhar funções importantes na dinâmica hidrológica e costeira, ajudando a dissipar energia, reter sedimentos e oferecer espaço para a movimentação da água.
Mas é preciso compreender corretamente essa função.
O manguezal não é uma “muralha” capaz de impedir qualquer enchente.
Ele é parte de um sistema natural de proteção, cuja eficiência depende da configuração da costa, da hidrologia, da topografia, da extensão do manguezal, da conexão com rios e canais e das características dos eventos extremos.
Quando essas áreas são aterradas, fragmentadas ou ocupadas, a cidade perde parte dessa infraestrutura natural.
E aquilo que antes era realizado gratuitamente pelo ecossistema pode precisar ser parcialmente substituído por obras de engenharia.
Carbono azul: o serviço que permanece escondido no solo
Existe ainda uma função que ganhou enorme importância nas discussões climáticas: o chamado carbono azul.
Manguezais armazenam carbono não apenas na vegetação acima do solo, mas também em seus solos ricos em matéria orgânica.
Em determinadas condições, esses estoques podem ser muito elevados quando comparados a outros ecossistemas costeiros e terrestres.
É por isso que a destruição de um manguezal pode ter consequências climáticas que vão muito além da perda da vegetação visível.
Quando o solo é drenado, revolvido ou exposto após a destruição do manguezal, parte do carbono armazenado pode ser liberada para a atmosfera.
Mas números como “um hectare destruído equivale às emissões de 300 carros durante um ano” não devem ser tratados como uma constante universal.
O resultado depende do estoque de carbono daquele manguezal, da profundidade do solo considerada, do grau de degradação e do método utilizado para converter o carbono perdido em equivalente de emissões.
A mensagem científica é mais importante do que a cifra isolada: manguezais podem armazenar grandes quantidades de carbono, especialmente no solo, e sua degradação pode transformar esse estoque em uma fonte potencial de emissões.
Um berçário que sustenta a pesca
Existe ainda uma função que pode ser percebida diretamente pela população: a produção de vida.
Manguezais oferecem abrigo, alimento e áreas de desenvolvimento para diferentes organismos aquáticos. Muitos peixes, crustáceos e outros animais utilizam ambientes estuarinos e manguezais em alguma etapa de seus ciclos de vida.
Isso significa que existe uma ligação entre a conservação do manguezal e a produtividade pesqueira.
Mas também aqui é necessário cuidado com números absolutos.
A afirmação de que “80% dos peixes e camarões capturados pelo pescador aracajuano nascem no mangue” exigiria uma fonte específica, definição das espécies consideradas e delimitação da área de pesca.
O princípio ecológico, entretanto, é sólido:
degradar o habitat de reprodução, alimentação ou desenvolvimento de espécies pode comprometer os estoques pesqueiros e, consequentemente, afetar comunidades que dependem desses recursos.
O manguezal, portanto, não produz apenas biodiversidade.
Pode produzir alimento, renda e segurança econômica para populações humanas.
Quando o esgoto entra, a cadeia inteira pode ser afetada
É por isso que o lançamento de esgoto no manguezal não deve ser interpretado simplesmente como um problema de água suja.
Existe uma cadeia de consequências potenciais:
esgoto → alteração da qualidade da água → mudanças nas condições físico-químicas → impactos sobre organismos → alteração das relações ecológicas → comprometimento de habitats → possível redução de serviços ecossistêmicos.
A intensidade dessa cadeia depende da carga lançada, da frequência, do volume, das características do efluente, da capacidade de renovação da água e das condições ambientais locais.
Mas o princípio é fundamental:
quando contaminamos o manguezal, não estamos apenas sujando a água. Estamos pressionando um sistema ecológico inteiro.
E esse sistema presta serviços que seriam extremamente caros para a sociedade reproduzir artificialmente.
Quanto vale um manguezal?
Essa talvez seja a pergunta mais provocadora.
Quanto custaria construir estruturas capazes de substituir integralmente todas as funções desempenhadas por um hectare de manguezal?
Uma estação de tratamento para substituir processos naturais de retenção e transformação de determinados contaminantes.
Obras de drenagem e proteção costeira para substituir parte das funções hidrológicas.
Infraestrutura para compensar a perda de habitats utilizados por espécies de interesse pesqueiro.
Programas de restauração para recuperar vegetação e solo.
Medidas para recuperar carbono perdido.
E, acima de tudo, o custo de tentar reconstruir um ecossistema que não funciona como uma máquina industrial, mas como uma rede complexa de interações biológicas.
É justamente por isso que a valoração ambiental não deve ser confundida com a tentativa de estabelecer um simples preço para a natureza.
O objetivo é demonstrar, em termos ecológicos e econômicos, aquilo que normalmente permanece invisível:
preservar um manguezal também é uma forma de investimento em infraestrutura, segurança, biodiversidade, clima e qualidade de vida.
Quando essa infraestrutura natural é destruída, a conta não desaparece.
Ela apenas muda de endereço.
Sai do ecossistema e chega à sociedade.
E talvez essa seja a maior ironia de todas: o manguezal que muitas vezes é tratado como “terreno sem valor” pode estar prestando gratuitamente serviços que custariam milhões para serem parcialmente substituídos por obras humanas.
Por isso, antes de perguntar quanto custa preservar um hectare de mangue, talvez seja necessário fazer a pergunta inversa:
quanto custará para Aracaju perder mais um hectare?






