terça-feira, 13 de outubro de 2026

Fracking e os riscos ambientais: quando a exploração do gás de folhelho encontra a água subterrânea

                                                            Dr. J.R. de Almeida

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes




A exploração de petróleo e gás em formações de baixa permeabilidade transformou a indústria de hidrocarbonetos ao combinar duas tecnologias: perfuração horizontal e fraturamento hidráulico, conhecido mundialmente como fracking.

A lógica parece simples: perfurar profundamente, alcançar a formação geológica que contém o gás, avançar horizontalmente pelo reservatório e injetar um fluido sob alta pressão para criar fraturas na rocha. Essas fraturas aumentam a permeabilidade da formação e permitem que o gás migre em direção ao poço.

Mas é justamente nessa aparente simplicidade que começa a complexidade ambiental.

A tecnologia interfere em diferentes componentes do sistema subterrâneo, utiliza grandes volumes de água, emprega aditivos químicos e gera fluidos que retornam à superfície com características diferentes das da água originalmente utilizada.

Por isso, o debate sobre o fracking não pode ser limitado à pergunta sobre quanto gás existe no subsolo. É necessário compreender o que acontece antes, durante e depois do fraturamento hidráulico.
Como funciona o fraturamento hidráulico?

Na exploração de gás não convencional, a perfuração pode alcançar grandes profundidades e, depois de atingir a formação de interesse, seguir horizontalmente por uma extensão significativa.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) explica que, em recursos não convencionais, é usual estender o poço horizontalmente para ampliar a área de contato com a formação. Em material técnico da agência, é citado um trecho horizontal em torno de 1.500 metros, embora a extensão real varie conforme o projeto e as condições geológicas.

Na sequência, um fluido — normalmente à base de água — é bombeado sob alta pressão.

Esse fluido contém água, material de sustentação, como areia, e aditivos químicos. A pressão provoca a abertura de fraturas estreitas na formação rochosa, enquanto os grãos de areia atuam como material de sustentação, ajudando a manter parte dessas fraturas abertas após a redução da pressão.

É por essas fraturas que o gás pode alcançar o poço e ser produzido.

Não se trata, portanto, de uma explosão convencional da rocha. O processo de fraturamento propriamente dito é provocado pela pressão hidráulica, e não por explosivos.
O problema começa quando a água retorna

Uma das etapas mais importantes — e ambientalmente sensíveis — ocorre depois da injeção.

Parte do fluido utilizado no fraturamento retorna à superfície. Esse material é conhecido como flowback.

A composição desse fluido não é necessariamente igual àquela da água que entrou no poço. Durante sua permanência no subsolo, o fluido pode interagir com a formação geológica e incorporar diferentes substâncias presentes naturalmente na rocha, além de conter componentes associados ao próprio processo de fraturamento.

A avaliação da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) identificou, em águas de retorno e águas produzidas associadas à exploração de petróleo e gás, diferentes grupos de substâncias, incluindo sais, metais, compostos orgânicos como benzeno e tolueno, radionuclídeos naturais e produtos químicos relacionados ao fraturamento.

Isso transforma a água que retorna do poço em um efluente que precisa ser coletado, caracterizado, armazenado, tratado, reutilizado ou destinado de forma ambientalmente adequada.

A própria EPA descreve o ciclo da água no fraturamento hidráulico em etapas que incluem captação, mistura química, injeção, coleta da água que retorna à superfície e posterior tratamento, reutilização ou disposição.
1. Contaminação da água: o risco que exige maior atenção

Entre os impactos ambientais associados ao fracking, a proteção dos recursos hídricos ocupa posição central.

O primeiro ponto a compreender é que o risco de contaminação não significa que todo poço de fraturamento inevitavelmente contaminará um aquífero. A existência de camadas geológicas separando a formação produtora dos recursos hídricos subterrâneos pode reduzir significativamente essa possibilidade.

Entretanto, a proteção depende de diversos fatores.

Um deles é a integridade do poço.

O poço é construído com revestimentos e cimentação destinados a criar barreiras entre diferentes formações subterrâneas. Se essas barreiras apresentarem falhas, gases ou líquidos podem migrar para zonas que não deveriam ser atingidas.

A avaliação científica da EPA concluiu que impactos sobre recursos de água potável associados à etapa de injeção já ocorreram em algumas situações e destacou a importância da integridade mecânica dos poços e da distância vertical entre a formação fraturada e os recursos hídricos subterrâneos.

Portanto, a questão não é simplesmente:

“O fracking contamina a água?”

A pergunta tecnicamente adequada é:

“Em quais condições pode ocorrer contaminação, quais são os caminhos possíveis e quais barreiras existem para impedir, detectar e controlar essa migração?”
Flowback não é simplesmente “água suja”

O termo flowback merece atenção porque frequentemente é tratado de maneira simplificada.

É o fluido que retorna inicialmente ao poço após a operação de fraturamento. Com o avanço da produção, também podem retornar grandes volumes de água produzida, cuja composição está relacionada às características naturais da formação e aos processos que ocorreram no subsolo.

Esses materiais podem apresentar concentrações elevadas de sais e diferentes componentes químicos.

Entre os constituintes que podem ser encontrados estão metais, compostos orgânicos e radionuclídeos naturais, dependendo da geologia e das condições específicas da formação.

É por isso que não existe uma fórmula única para dizer exatamente “o que há” no flowback de todos os poços.

A composição precisa ser determinada por amostragem e análise laboratorial.
Radioatividade natural: um risco que não pode ser ignorado

A presença de materiais radioativos naturais não significa que o processo de fraturamento transforme automaticamente toda a água em um resíduo radioativo perigoso.

O ponto técnico é outro.

Algumas formações geológicas contêm radionuclídeos naturais. Durante a exploração de petróleo e gás, determinados processos podem mobilizar ou concentrar esses materiais em resíduos, incrustações, lodos e águas associadas à produção.

Esses materiais são frequentemente enquadrados no conceito de NORM — materiais radioativos de ocorrência natural — e, quando sua concentração ou disponibilidade é aumentada pela atividade industrial, podem ser classificados como TENORM, ou materiais radioativos naturais tecnologicamente enriquecidos.

Entre os radionuclídeos que podem estar envolvidos estão elementos das séries naturais do urânio e do tório, além de outros radionuclídeos presentes nas formações geológicas.

Isso significa que o gerenciamento ambiental não deve olhar apenas para a toxicidade química dos efluentes. Dependendo das características geológicas, também pode ser necessário avaliar radioatividade e exposição ocupacional e ambiental.
Benzeno e tolueno: por que esses nomes preocupam?

Benzeno e tolueno pertencem ao grupo dos compostos orgânicos conhecidos como BTEX, juntamente com etilbenzeno e xilenos.

Esses compostos podem ocorrer naturalmente em determinadas formações e também estar associados aos hidrocarbonetos presentes no subsolo.

O problema ambiental surge quando substâncias potencialmente tóxicas atingem recursos hídricos em concentrações capazes de produzir efeitos adversos.

Por isso, encontrar determinado composto em uma amostra não é, isoladamente, suficiente para concluir que houve contaminação ambiental provocada pelo fracking. É necessário estabelecer concentração, origem, trajetória, tempo de ocorrência e relação causal com a atividade.

Essa distinção é fundamental para que o debate seja baseado em evidências e não apenas em afirmações genéricas.
A quantidade de água também importa

Outro ponto de preocupação é o volume de água empregado.

Operações de fraturamento hidráulico podem utilizar grandes quantidades de água, e o volume varia conforme a formação, o número de estágios de fraturamento, o comprimento dos trechos horizontais e as características do projeto.

Por isso, números como “15 a 25 milhões de litros por poço” devem ser tratados como ordens de grandeza associadas a determinados projetos, e não como uma quantidade universal aplicável a todos os poços.

O impacto ambiental também depende da origem dessa água.

Retirar grandes volumes de um rio, reservatório ou aquífero em uma região com disponibilidade hídrica limitada pode produzir consequências diferentes daquelas observadas em uma área com abundância de água.

Assim, a pergunta ambiental correta não é apenas:

“Quanto de água o fracking utiliza?”

É também:

“De onde vem essa água, quem depende dela, quanto é retirado, em que época do ano e o que acontece com ela depois?”
Quando o problema deixa de ser apenas subterrâneo

O risco ambiental não termina quando o gás começa a sair do poço.

O flowback e a água produzida precisam ser transportados, armazenados, tratados, reutilizados ou destinados.

Cada uma dessas etapas representa um possível ponto de exposição ambiental.

A EPA destaca que derramamentos de águas produzidas podem atingir águas superficiais e subterrâneas e que o gerenciamento inadequado dos resíduos de exploração e produção pode representar riscos ambientais.

Portanto, não basta avaliar apenas o que acontece a milhares de metros de profundidade.

É necessário acompanhar todo o ciclo da água.
O risco não está em um único ponto

A grande questão ambiental do fracking é que seus riscos não estão concentrados em uma única etapa.

Eles podem estar associados à:

captação de água;


transporte e armazenamento dos insumos;


perfuração;


construção e cimentação do poço;


injeção dos fluidos;


integridade das barreiras subterrâneas;


retorno do flowback;


produção de água associada;


armazenamento de efluentes;


transporte dos resíduos;


tratamento e disposição final;


abandono e descomissionamento do poço.

É uma cadeia de riscos.

E quanto maior a escala de exploração, maior também a necessidade de fiscalização, monitoramento e capacidade de resposta.
O verdadeiro desafio para o Brasil

Em um país que possui importantes reservas de água subterrânea, a discussão sobre exploração de hidrocarbonetos não convencionais precisa incorporar uma perspectiva de segurança hídrica.

O ponto central não é demonizar uma tecnologia nem considerá-la automaticamente segura.

É reconhecer que a exploração de recursos subterrâneos exige conhecimento detalhado da geologia, da hidrogeologia e da integridade dos poços, além de monitoramento ambiental permanente.

Antes da atividade, é fundamental conhecer a qualidade da água existente.

Durante a atividade, é necessário monitorar possíveis alterações.

Depois, é preciso continuar acompanhando o ambiente para identificar efeitos tardios.

Sem uma boa linha de base ambiental, fiscalização independente e dados confiáveis, torna-se muito mais difícil determinar se uma alteração observada foi causada pela atividade industrial ou se já existia anteriormente.

O fracking pode parecer uma sequência simples:

perfura → desvia horizontalmente → injeta sob pressão → fratura → libera o gás.

Mas ambientalmente a sequência é muito maior:

capta água → mistura aditivos → perfura → fratura → produz gás → recupera fluidos → armazena → trata → transporta → destina resíduos → monitora o subsolo e os recursos hídricos.

É nessa segunda sequência que estão os principais desafios ambientais.

E, quando a exploração ocorre em regiões hidrogeologicamente sensíveis, a pergunta deixa de ser apenas quanto combustível existe sob a terra.

Passa a ser:



quanto vale esse recurso energético diante da necessidade de proteger, por décadas ou séculos, a água que permanece acima e ao redor dele?

Riscos ambientais na exploração de petróleo e gás de xisto: o desafio do fraturamento hidráulico

                                                        Dr. J.R. de Almeida

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes



A exploração de petróleo e gás de xisto está entre as atividades mais controversas da indústria de energia contemporânea. De um lado, o chamado shale gas e o shale oil representam importantes fontes potenciais de hidrocarbonetos. De outro, a tecnologia utilizada para retirá-los do subsolo envolve intervenções profundas na formação geológica, elevado consumo de água, utilização de produtos químicos e geração de grandes volumes de fluidos que precisam ser adequadamente controlados.

No Brasil, o debate ganha uma dimensão ainda maior porque parte das formações potencialmente produtoras de gás de xisto ocorre em regiões de grande importância hidrogeológica. O Aquífero Guarani, um dos principais sistemas aquíferos da América do Sul, torna especialmente relevante qualquer discussão sobre atividades que possam alterar as condições subterrâneas, mesmo quando não existe uma conexão hidráulica direta entre a formação explorada e o aquífero.

Por isso, a questão ambiental não deve ser reduzida à pergunta sobre a existência ou não de reservas de gás. O ponto central é compreender como, onde e sob quais condições uma eventual exploração poderia ocorrer, considerando os riscos ambientais, a proteção dos recursos hídricos, a integridade dos poços, a gestão dos resíduos e a capacidade de fiscalização.
O que é o gás de xisto?

O gás natural convencional e o gás de xisto são compostos predominantemente por hidrocarbonetos, mas apresentam diferenças importantes quanto à forma como estão armazenados nas formações geológicas.

Nos reservatórios convencionais, o petróleo e o gás podem estar concentrados em rochas com maior permeabilidade, formando acumulações que permitem que os fluidos migrem e sejam produzidos por meio de poços.

No caso do gás de xisto, o gás está associado a uma rocha de baixa permeabilidade, conhecida como xisto ou shale. Em uma analogia simplificada, é como se o gás estivesse distribuído dentro de uma estrutura rochosa muito pouco permeável, dificultando seu deslocamento natural até o poço.

É justamente essa característica que torna necessária uma técnica de estimulação da formação.
Como funciona o fraturamento hidráulico?

O fraturamento hidráulico, conhecido internacionalmente como fracking, é uma técnica utilizada para aumentar artificialmente a permeabilidade de determinadas formações rochosas e permitir que o gás ou o petróleo alcance o poço.

De maneira geral, a operação começa com a perfuração de um poço que pode alcançar grandes profundidades. Em projetos de exploração de recursos não convencionais, os poços podem atingir alguns quilômetros abaixo da superfície e, posteriormente, apresentar trechos horizontais dentro da formação produtora.

Em determinadas condições, a profundidade vertical pode chegar a aproximadamente 3.000 metros ou mais, dependendo da geologia e do projeto.

Depois da perfuração, grandes volumes de fluido são injetados sob alta pressão. Esse fluido é predominantemente composto por água, mas pode conter areia ou outros agentes de sustentação e diferentes aditivos químicos.

A pressão provoca a abertura de pequenas fraturas na rocha. A areia, ou outro material granular utilizado para essa finalidade, ajuda a manter parte dessas fraturas abertas depois que a pressão é reduzida.

Com a formação mais permeável, o gás ou o petróleo consegue migrar por essas fraturas em direção ao poço e, posteriormente, ser produzido.

Portanto, o fracking não significa simplesmente "furar a terra para retirar o gás". Trata-se de uma intervenção complexa que combina perfuração profunda, construção de poços, pressurização de fluidos, alteração localizada da formação rochosa e posterior gestão dos fluidos produzidos.
Onde estão os principais riscos ambientais?

A preocupação ambiental não está associada a um único mecanismo. Ela envolve uma cadeia de possíveis impactos que começa na preparação da área e continua durante a perfuração, o fraturamento, a produção e o abandono do poço.

Um dos pontos mais sensíveis é a proteção das águas subterrâneas.

É importante fazer uma distinção técnica. O risco não significa que o fluido de fraturamento necessariamente entrará em contato com um aquífero. Os aquíferos de interesse para abastecimento humano e as formações produtoras de hidrocarbonetos podem estar separados por espessas camadas de rochas.

Entretanto, a proteção dessa barreira geológica depende da existência e da manutenção da integridade do sistema de poços e das características da própria formação. Por isso, a avaliação ambiental precisa considerar a geologia regional, a hidrogeologia, as falhas existentes, a pressão dos fluidos e, principalmente, a qualidade da construção e da cimentação dos poços.
Integridade do poço: uma das questões centrais

Um poço de exploração não é apenas um buraco aberto no subsolo. Ele precisa ser projetado para funcionar como uma estrutura de isolamento entre diferentes formações geológicas.

Para isso, são utilizados revestimentos metálicos e cimento, formando barreiras destinadas a impedir a migração indesejada de fluidos.

Se essas barreiras apresentarem falhas, deterioração ou problemas de execução, pode existir risco de migração de fluidos para formações que não deveriam recebê-los.

Por essa razão, a integridade do poço deve ser monitorada durante todo o seu ciclo de vida, desde a construção até o abandono.

Em uma região hidrogeologicamente sensível, essa questão assume importância ainda maior.
Consumo e gestão da água

Outro aspecto frequentemente associado ao fracking é o consumo de água.

O processo pode exigir grandes volumes de água para preparar e injetar os fluidos utilizados no fraturamento. A quantidade varia de acordo com a formação geológica, o projeto do poço e a tecnologia empregada.

O problema ambiental, portanto, não se resume à quantidade de água utilizada. É necessário avaliar de onde essa água será retirada, em que período, quais outros usuários dependem daquele recurso e como os fluidos retornados à superfície serão tratados e destinados.

Em regiões sujeitas a escassez hídrica, a competição pelo recurso pode se tornar uma questão ambiental e social relevante.
O que acontece com a água que retorna à superfície?

Após o fraturamento, parte do fluido injetado pode retornar à superfície. Esse material, frequentemente denominado água de retorno ou flowback, pode apresentar composição diferente da água originalmente utilizada.

Durante a permanência no subsolo, o fluido pode entrar em contato com minerais e outros componentes da formação geológica. Além disso, a produção do poço pode gerar águas de formação, que também precisam ser coletadas, caracterizadas e adequadamente gerenciadas.

Isso significa que a operação produz não apenas hidrocarbonetos, mas também efluentes e resíduos que exigem controle ambiental rigoroso.

O armazenamento inadequado, vazamentos, derramamentos ou tratamento insuficiente desses materiais podem representar riscos para o solo e para os recursos hídricos superficiais e subterrâneos.
Produtos químicos e transparência

Os fluidos empregados no fraturamento podem conter diferentes aditivos destinados a funções específicas, como reduzir atrito, controlar corrosão, impedir determinados processos microbiológicos ou modificar propriedades do fluido.

Isso não significa que todos esses produtos sejam necessariamente perigosos nas concentrações e condições utilizadas, mas exige controle rigoroso.

A avaliação ambiental deve considerar a identidade das substâncias, suas concentrações, toxicidade, persistência, comportamento ambiental e formas de armazenamento e descarte.

A transparência sobre os produtos utilizados também é importante para permitir que órgãos ambientais, pesquisadores e comunidades possam avaliar adequadamente os riscos.
O risco das emissões atmosféricas

A exploração de gás de xisto também apresenta questões relacionadas à qualidade do ar e às emissões de gases de efeito estufa.

Durante diferentes etapas da operação podem ocorrer emissões de metano e outros compostos. O metano é particularmente relevante porque apresenta elevado potencial de aquecimento global.

Por isso, além de avaliar o risco de vazamentos, é necessário monitorar equipamentos, conexões, válvulas, instalações de produção e sistemas de armazenamento e transporte.

Uma exploração de gás natural pode reduzir determinadas emissões em comparação com combustíveis mais intensivos em carbono quando utilizado para geração de energia, mas isso não elimina a necessidade de controlar emissões fugitivas de metano ao longo de toda a cadeia produtiva.
Sismicidade induzida

Outro tema importante é a possibilidade de ocorrência de sismicidade induzida.

O próprio processo de fraturamento hidráulico pode provocar pequenos eventos sísmicos associados à abertura e reativação de fraturas. Em determinadas circunstâncias, porém, a questão mais significativa pode estar relacionada à injeção subterrânea de grandes volumes de água residual, dependendo das características geológicas da região.

Por isso, uma avaliação responsável precisa considerar a estrutura tectônica local, a presença de falhas geológicas, o histórico sísmico e as características dos reservatórios e formações profundas.

Monitoramento sísmico antes, durante e depois das operações pode ser uma ferramenta importante para identificar alterações e estabelecer critérios de resposta.
E o Aquífero Guarani?

A relação entre gás de xisto e Aquífero Guarani exige cuidado para evitar simplificações.

Não é tecnicamente correto afirmar que todo gás de xisto existente na região esteja necessariamente "embaixo do Aquífero Guarani" ou que o fraturamento hidráulico inevitavelmente contaminará o aquífero.

O Sistema Aquífero Guarani é extenso e apresenta grande complexidade geológica. As condições de confinamento, profundidade, espessura das camadas e conectividade hidráulica variam regionalmente.

O que torna a questão ambiental particularmente importante é justamente a necessidade de conhecer essa estrutura em detalhe antes de qualquer empreendimento.

Antes de uma eventual exploração, seria necessário compreender a relação entre as formações produtoras e os sistemas aquíferos, identificar falhas e zonas de maior vulnerabilidade, estabelecer uma linha de base da qualidade da água e implantar mecanismos permanentes de monitoramento.
Monitorar antes para saber o que mudou depois

Um dos princípios mais importantes em qualquer avaliação ambiental de atividade potencialmente impactante é estabelecer uma linha de base ambiental.

Antes da operação, devem ser conhecidas as condições existentes na região: qualidade das águas subterrâneas e superficiais, características do solo, parâmetros hidrogeológicos, qualidade do ar e, quando pertinente, atividade sísmica natural.

Sem essa informação, torna-se muito mais difícil determinar posteriormente se uma alteração observada está relacionada à atividade industrial ou se já existia anteriormente.

O monitoramento ambiental, portanto, não deve começar depois de aparecer um problema. Ele precisa começar antes da intervenção.
A pergunta não é apenas se existe gás

A existência de uma reserva de hidrocarbonetos não significa automaticamente que sua exploração seja ambientalmente aceitável, tecnicamente viável ou economicamente justificável.

Entre a descoberta de um recurso e sua exploração existe uma sequência de decisões que envolve geologia, engenharia, economia, legislação ambiental, recursos hídricos, saúde pública, planejamento territorial e participação social.

No caso do gás e do petróleo de xisto, essa avaliação precisa ser ainda mais criteriosa porque a atividade depende de intervenções profundas e repetidas, com utilização significativa de água e geração de resíduos e efluentes.

Em regiões onde existem aquíferos estratégicos, áreas de recarga, ecossistemas sensíveis ou comunidades dependentes diretamente da água subterrânea, o princípio da prevenção assume papel fundamental.
Explorar ou preservar: uma decisão que exige ciência

O debate sobre o fracking frequentemente acaba dividido entre posições extremas: de um lado, aqueles que enxergam apenas a oportunidade energética e econômica; de outro, aqueles que consideram qualquer exploração necessariamente incompatível com a proteção ambiental.

Uma análise técnica precisa ir além dessas duas posições.

A pergunta fundamental é: quais são os riscos, qual é a probabilidade de ocorrência, quais seriam as consequências e existem mecanismos capazes de prevenir, detectar e responder adequadamente a esses eventos?

No caso brasileiro, essa avaliação deve incluir necessariamente a proteção dos recursos hídricos, especialmente em regiões associadas a sistemas aquíferos de grande importância.

A exploração de petróleo e gás de xisto, portanto, não pode ser analisada apenas pela quantidade de combustível existente no subsolo. O verdadeiro desafio está em determinar se os benefícios energéticos e econômicos justificam os riscos ambientais envolvidos e, principalmente, se esses riscos podem ser efetivamente controlados.

Quando o recurso estratégico está associado a um território que também abriga recursos hídricos estratégicos, a decisão deixa de ser apenas energética. Torna-se uma questão de segurança ambiental, segurança hídrica e planejamento de longo prazo.

A pergunta que permanece não é simplesmente "quanto gás existe?".

É uma pergunta muito mais ampla:



"Qual é o custo ambiental, hídrico e social para transformar esse recurso subterrâneo em energia — e quem assumirá a responsabilidade caso os controles falhem?"

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Valor e energia psíquica em Jung: como a mente distribui seus investimentos

                                                           Dr. J.R. de Almeida

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes



Na perspectiva de Carl Gustav Jung, aquilo que uma pessoa considera importante pode ser compreendido a partir do conceito de valor psicológico. Quanto maior a quantidade de energia psíquica direcionada para determinado conteúdo, maior tende a ser o valor que esse conteúdo possui para o indivíduo.

Valor, nesse sentido, não representa apenas uma avaliação racional. Uma pessoa pode afirmar que determinada atividade não é importante, mas dedicar grande parte de sua atenção, tempo, preocupação e energia emocional a ela. A intensidade desse investimento revela que, do ponto de vista psíquico, aquele elemento ocupa uma posição relevante.

A energia psíquica, na teoria junguiana, pode ser direcionada para diferentes dimensões da existência. O corpo, a família, os relacionamentos amorosos, a atividade profissional, a vida social, o conhecimento, o lazer e os projetos pessoais podem receber diferentes níveis de investimento ao longo da vida.

O problema não está necessariamente em dedicar muita energia a uma determinada área. Existem períodos em que uma pessoa precisa concentrar esforços em uma profissão, cuidar de um familiar, estudar intensamente ou atravessar uma fase de mudanças. A questão surge quando a distribuição dos investimentos se torna rígida, excessivamente concentrada ou incompatível com as necessidades globais do indivíduo.

Uma carreira pode ocupar lugar central em determinado momento, mas quando todo o investimento psíquico passa a depender exclusivamente do desempenho profissional, outras dimensões da vida podem perder espaço. O mesmo pode acontecer quando uma relação afetiva absorve praticamente toda a atenção, quando as responsabilidades familiares eliminam qualquer espaço para autocuidado ou quando o isolamento social reduz progressivamente as possibilidades de troca.

Nesse sentido, o equilíbrio não significa distribuir exatamente a mesma quantidade de energia para todas as áreas. Significa desenvolver uma relação suficientemente flexível com as diferentes necessidades da vida.

A energia psíquica também pode mudar de direção. Um interesse profissional pode perder força depois de uma mudança de carreira. Uma relação pode assumir maior importância em determinado período. O nascimento de um filho pode reorganizar prioridades. Uma doença, uma perda, uma aposentadoria ou uma mudança de cidade podem provocar uma redistribuição significativa dos investimentos psicológicos.

Para a psicologia analítica, essas transformações fazem parte da dinâmica da personalidade.

Quando a energia permanece excessivamente presa a determinada direção, entretanto, podem surgir conflitos entre aquilo que a consciência pretende sustentar e outras necessidades psicológicas que permanecem sem espaço de expressão.

É nesse contexto que a psicologia analítica utiliza conceitos como complexo, conflito, compensação e individuação para compreender os movimentos da psique.

O sofrimento psicológico não deve ser reduzido, portanto, à simples ideia de que alguém "investiu energia demais" em determinada área. Ansiedade, apatia, exaustão e outros sintomas podem ter múltiplas causas e exigem uma avaliação adequada. A perspectiva junguiana oferece uma maneira particular de investigar o significado desses fenômenos dentro da história individual.

O processo terapêutico pode contribuir justamente para tornar esses padrões mais conscientes.

Na análise junguiana, o objetivo não é simplesmente eliminar um sintoma ou obrigar a pessoa a distribuir seu tempo de maneira matemática. O trabalho envolve investigar conflitos, valores, padrões recorrentes, conteúdos inconscientes e aspectos da personalidade que podem estar pouco integrados à consciência.

Ao reconhecer onde sua atenção e sua energia estão concentradas, a pessoa pode começar a perceber quais dimensões de sua existência foram negligenciadas, quais necessidades estão em conflito e quais escolhas deixaram de corresponder àquilo que considera significativo.

Esse processo está relacionado ao conceito junguiano de individuação, pelo qual a personalidade busca maior integração entre diferentes aspectos da vida psíquica.

O objetivo não é alcançar uma existência sem conflitos, mas desenvolver uma relação mais consciente com eles.

Na teoria de Jung, essa integração está relacionada ao Self, conceito que representa a totalidade e o princípio organizador da psique, abrangendo tanto a consciência quanto o inconsciente. O Self não deve ser confundido simplesmente com o ego. Enquanto o ego corresponde ao centro da consciência, o Self representa uma totalidade psíquica mais ampla.

A integração entre diferentes dimensões da personalidade, portanto, não significa eliminar diferenças internas, mas ampliar a capacidade de reconhecê-las e relacioná-las de maneira mais consciente.

É nesse sentido que corpo, família, vínculos afetivos, trabalho, conhecimento, lazer e vida social podem ser compreendidos não como compartimentos isolados, mas como campos nos quais a pessoa investe parte de sua energia e constrói significado.

A pergunta central deixa de ser apenas "quanto tempo está sendo dedicado a cada área?" e passa a ser "para onde está sendo direcionada a energia psíquica e qual valor essa área possui?"

Essa mudança de perspectiva é importante porque duas pessoas podem dedicar o mesmo número de horas ao trabalho e vivenciar essa experiência de maneiras completamente diferentes. Para uma, o trabalho pode representar realização e propósito. Para outra, pode representar medo, obrigação ou necessidade de reconhecimento.

O comportamento externo pode ser semelhante. O investimento psíquico e o significado atribuído à experiência podem ser completamente diferentes.

Na perspectiva junguiana, compreender essa diferença é parte do caminho de autoconhecimento.

A energia psíquica não é apresentada aqui como uma forma de energia física mensurável pelo mesmo método utilizado para estudar energia no campo da física. Trata-se de um conceito teórico desenvolvido por Jung para descrever a dinâmica dos processos psicológicos.

Sua relevância está justamente em oferecer uma linguagem para pensar sobre aquilo que mobiliza a pessoa: aquilo que recebe sua atenção, desperta emoção, ocupa seus pensamentos, orienta escolhas e dá significado à experiência.

Quando esse investimento se torna excessivamente rígido, a vida pode perder flexibilidade. Quando diferentes dimensões da existência conseguem dialogar, aumenta a possibilidade de uma organização psicológica mais integrada.

Nesse percurso, a psicoterapia pode ser um espaço de investigação e elaboração. Com acompanhamento profissional adequado, torna-se possível observar padrões de investimento, compreender conflitos e construir formas mais conscientes de lidar com as próprias prioridades.

Para Jung, o desenvolvimento psicológico não consiste em viver sem tensão, mas em ampliar a consciência sobre as forças que movimentam a própria vida.

A integração, nesse sentido, não representa uma divisão perfeita da energia entre todas as áreas. Representa a capacidade de reconhecer o que possui valor, perceber quando determinada área passou a dominar excessivamente a vida psíquica e criar condições para que diferentes dimensões da existência possam coexistir.

É nesse movimento que o conceito junguiano de Self ganha importância: não como um estado de perfeição psicológica, mas como referência para uma compreensão mais ampla da totalidade da pessoa.

No centro dessa perspectiva está uma pergunta aparentemente simples, mas psicologicamente profunda:



Onde está sendo colocada a energia da vida — e o que isso revela sobre aquilo que realmente possui valor?

Energia psíquica na perspectiva junguiana: o equilíbrio entre forças reais e potenciais

                                         Dr. J.R. de Almeida

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes




Na psicologia analítica de Carl Gustav Jung, a vida psíquica não pode ser compreendida apenas a partir daquilo que chega à consciência. Para o psiquiatra suíço, a mente humana é formada por uma dinâmica contínua entre conteúdos conscientes e inconscientes, experiências já vividas e possibilidades ainda não realizadas.

Nesse contexto, Jung utilizou o conceito de energia psíquica, ou libido, para descrever uma força dinâmica envolvida nos diferentes processos da vida mental. Diferentemente da utilização mais restrita do termo libido na tradição freudiana, Jung ampliou seu significado, compreendendo-o como uma energia que pode se manifestar em diferentes atividades, interesses, desejos, conflitos e processos de transformação psicológica.

Em A Natureza da Psique, Jung descreve a energia psíquica como uma dinâmica que pode assumir diferentes direções e formas de expressão. A atenção, a motivação, o pensamento, os sentimentos e os impulsos humanos podem ser compreendidos, nessa perspectiva, como manifestações de uma atividade psíquica que está constantemente se reorganizando.

Uma maneira de compreender esse modelo é observar a relação entre aquilo que está efetivamente presente na consciência e aquilo que permanece como possibilidade.

As chamadas forças reais podem ser associadas às funções conscientes do ego: perceber, lembrar, pensar, sentir e querer. São processos por meio dos quais o indivíduo entra em contato com o ambiente, interpreta acontecimentos, recupera experiências, formula pensamentos, atribui valores e orienta seu comportamento.

Quando uma pessoa percebe uma situação, recorda uma experiência anterior, toma uma decisão ou direciona sua atenção para determinado objetivo, existe uma mobilização da atividade psíquica em torno daquele conteúdo.

Entretanto, para Jung, a psique não se limita ao que está consciente.

Ao lado dessas manifestações encontram-se as forças potenciais, relacionadas às tendências, predisposições e conteúdos que ainda não se encontram plenamente conscientes. Nesse campo estão os conteúdos inconscientes pessoais e, dentro da teoria junguiana, os arquétipos associados ao inconsciente coletivo.

A ideia central é que a personalidade não representa apenas aquilo que o indivíduo já sabe sobre si mesmo. Existem possibilidades psicológicas que podem permanecer latentes durante determinado período e emergir diante de experiências, conflitos, mudanças ou situações que exijam adaptação.

Uma pessoa pode, por exemplo, descobrir capacidades que não reconhecia anteriormente depois de enfrentar uma situação de grande responsabilidade. Da mesma forma, uma experiência de perda, mudança profissional, relacionamento ou crise pode trazer à consciência emoções e conflitos que permaneciam pouco acessíveis.

Na perspectiva junguiana, esses acontecimentos não são simplesmente armazenados de maneira passiva. As experiências participam de um processo contínuo de transformação da vida psíquica.

É nesse ponto que os sonhos assumem importância particular na psicologia analítica.

Durante o sono, a atividade psíquica não desaparece. Os sonhos podem apresentar imagens, personagens, acontecimentos e situações simbólicas que nem sempre possuem uma interpretação literal. Para Jung, eles podem expressar conteúdos inconscientes e estabelecer uma relação compensatória ou complementar com a atitude consciente.

Um sonho, portanto, não precisa ser interpretado como uma previsão do futuro ou como uma mensagem objetiva com significado universal. Na abordagem junguiana, seu significado depende da história individual, das associações do próprio indivíduo e do contexto psicológico em que o sonho ocorre.

Essa compreensão ajuda a explicar por que uma mesma imagem pode assumir significados diferentes para pessoas diferentes.

A água, por exemplo, pode aparecer associada a tranquilidade em determinado contexto e a medo ou ameaça em outro. Uma casa pode representar experiências relacionadas ao próprio indivíduo, mas seu significado precisa ser investigado a partir das associações pessoais e do conjunto do sonho.

Para Jung, o símbolo possui justamente essa característica: ele aponta para algo que não está completamente esgotado por uma definição racional.

A energia psíquica, nesse sentido, não seria uma substância mensurável circulando dentro do cérebro. Trata-se de um conceito teórico da psicologia analítica utilizado para descrever transformações, direcionamentos e movimentos da vida psíquica.

Sua direção também estaria relacionada ao valor psicológico atribuído às experiências.

Aquilo que possui grande importância para uma pessoa tende a mobilizar maior atenção, emoção, memória e comportamento. Uma oportunidade profissional pode ocupar intensamente os pensamentos de alguém, enquanto o mesmo acontecimento pode ser praticamente irrelevante para outra pessoa.

O acontecimento externo pode ser semelhante; o valor psicológico atribuído a ele pode ser completamente diferente.

Essa diferença é fundamental para compreender a perspectiva junguiana. A psique não reage apenas ao que acontece, mas também ao significado que o indivíduo atribui ao que acontece.

Uma crítica recebida no trabalho pode ser interpretada como ameaça por uma pessoa e como oportunidade de aprendizado por outra. Uma mudança pode ser experimentada como perda por alguém e como possibilidade de transformação por outra pessoa.

Nesse processo, a energia psíquica pode ser direcionada para diferentes objetos e atividades: trabalho, relacionamentos, conhecimento, criatividade, espiritualidade, competição, cuidado, realização pessoal ou busca de significado.

Quando uma determinada direção deixa de responder às necessidades psicológicas do indivíduo, podem surgir conflitos. Na perspectiva junguiana, esses conflitos podem representar não apenas obstáculos, mas também sinais de que alguma dimensão da personalidade está exigindo reconhecimento.

É nesse território que aparece um dos conceitos centrais da psicologia analítica: o processo de individuação.

A individuação corresponde, em linhas gerais, ao processo de desenvolvimento pelo qual a pessoa amplia a consciência de si mesma e estabelece uma relação mais integrada entre diferentes aspectos da personalidade. Não significa tornar-se uma pessoa isolada ou completamente independente, mas desenvolver maior consciência sobre as próprias características, conflitos, limitações e potencialidades.

O encontro com conteúdos inconscientes pode, portanto, ser desconfortável. Aspectos rejeitados ou pouco reconhecidos da personalidade podem aparecer na forma de conflitos, emoções intensas, sonhos ou padrões repetitivos de comportamento.

Jung denominou sombra uma parte importante desse território psicológico: aspectos da personalidade que permanecem pouco integrados à consciência e que podem incluir características consideradas inadequadas, indesejáveis ou incompatíveis com a imagem que o indivíduo construiu de si mesmo.

A integração desses conteúdos não significa simplesmente aceitar qualquer impulso ou comportamento. Significa reconhecê-los como parte da própria experiência psíquica e desenvolver maior capacidade de lidar conscientemente com eles.

É importante destacar que os conceitos de arquétipo, inconsciente coletivo e energia psíquica pertencem ao campo teórico da psicologia analítica. Eles não devem ser apresentados como equivalentes a conceitos atualmente estabelecidos pela neurociência experimental.

A neurociência contemporânea investiga fenômenos como memória, emoção, atenção, tomada de decisão e sono por meio de métodos experimentais, neuroimagem, eletrofisiologia e outras abordagens. A psicologia analítica de Jung, por sua vez, oferece um modelo interpretativo próprio para compreender a experiência subjetiva e os processos simbólicos.

As duas perspectivas podem dialogar em alguns temas, mas não são intercambiáveis.

A contribuição de Jung permanece especialmente relevante para compreender uma questão que ultrapassa a simples descrição dos mecanismos cerebrais: como os seres humanos atribuem significado à própria experiência?

Sob essa perspectiva, a energia psíquica representa um movimento contínuo entre aquilo que já está consciente e aquilo que ainda pode ser desenvolvido; entre experiências passadas e possibilidades futuras; entre adaptação ao mundo externo e transformação interna.

A vida psíquica, portanto, não seria estática. Ela estaria permanentemente reorganizando prioridades, valores, emoções e representações.

Na linguagem junguiana, compreender esse movimento significa olhar para além do comportamento visível e perguntar o que determinada experiência representa para aquele indivíduo.

É nesse equilíbrio entre forças conscientes e potenciais que Jung localiza uma parte essencial do desenvolvimento psicológico: a possibilidade de transformar a experiência em consciência, reconhecer conteúdos antes ignorados e ampliar progressivamente a compreensão de si mesmo.



Mais do que uma ideia de "energia" no sentido físico, trata-se de uma metáfora teórica para compreender o movimento da vida psíquica — uma dinâmica na qual atenção, emoção, desejo, memória, conflito e significado participam continuamente da construção da experiência humana.

Minha gratidão e minha despedida

                                                       Dr. J.R. de Almeida

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes



Minha gratidão e minha despedida

Em 2012, aposentei-me com 35 anos de atividades acadêmicas na UFRJ. Ao constatar a publicação no Diário Oficial, senti um sintoma de depressão, perda. Pois o documento me remetia uma percepção de que se tratava do meu atestado de óbito. Tive dificuldades na despedida.

Prossegui na UERJ ,e agora no final de 2023, completo 40 de trabalho nesta instituição. Novamente tenho o desafio desse dilema: tenho que me aposentar antes dos 75.

O faço agora. Decidi. Despeço-me com a sensação do dever cumprido.

O registro desta trajetória, para mim , fica não apenas no meu CV LATTES mas principalmente no meu coração. Com as boas marcas de inúmeras amizades e acontecimentos.

Permito-me ,afinal sou idoso e tenho meus direitos, a coroar a trajetória com o agradecimento, em que fui citado, pela mestranda Georgia(PEAMB,UERJ).

Muito grato a todos

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Consultor e Especialista: quando a organização busca conhecimento fora e quando precisa de profundidade técnica

                                                         Dr. J.R. de Almeida

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes





Se o analista transforma dados em diagnóstico e o gestor transforma diagnósticos em decisões, o consultor entra em cena para oferecer conhecimento, experiência ou capacidade de execução que a organização não possui internamente — ou que prefere contratar externamente.

Já o especialista representa outro nível de profundidade. Não se trata necessariamente de um cargo ou de um vínculo contratual específico, mas do grau de conhecimento acumulado em determinado campo técnico.

A distinção entre os dois é importante porque um consultor pode atuar em diferentes assuntos, enquanto um especialista é normalmente procurado quando o problema exige conhecimento altamente específico, experiência acumulada e capacidade de enfrentar situações complexas ou pouco usuais.
O consultor: quem chega de fora para resolver um problema específico

O consultor atua, em regra, como profissional ou organização externa contratada para diagnosticar problemas, orientar decisões, desenvolver estudos ou entregar produtos previamente definidos em contrato.

Diferentemente de um profissional inserido na estrutura hierárquica da organização, o consultor normalmente não ocupa uma posição permanente dentro do organograma do cliente. Sua atuação é delimitada pelo contrato, pelo escopo do serviço e pelas entregas previstas.

Seus principais verbos de ação são aconselhar, diagnosticar, recomendar, elaborar e entregar.

Na área ambiental, a consultoria pode assumir inúmeras formas. Uma empresa pode ser contratada para desenvolver estudos ambientais, elaborar documentos para processos de licenciamento, realizar diagnósticos, estruturar programas de monitoramento, produzir inventários de emissões, elaborar relatórios de sustentabilidade ou apoiar sistemas de gestão ambiental.

Em um estudo ambiental complexo, por exemplo, uma consultoria externa pode reunir profissionais de diferentes áreas para produzir diagnósticos, mapas, levantamentos de campo, avaliações de impacto e documentos técnicos.

O consultor, portanto, não é simplesmente alguém que "dá uma opinião". Dependendo do objeto contratado, pode ser responsável pela produção de documentos, análises, estudos e recomendações que serão utilizados pelo cliente para tomar decisões.

Essa característica também diferencia a consultoria do trabalho típico de um analista interno.

O analista geralmente está inserido na estrutura organizacional e desempenha uma função contínua dentro da empresa ou instituição. O consultor, por sua vez, é contratado para uma finalidade determinada, podendo receber remuneração por projeto, produto, hora técnica ou outra modalidade prevista contratualmente.

Mas existe uma ressalva importante: ser externo não significa, por si só, possuir menor ou maior responsabilidade.

A responsabilidade profissional deve ser analisada conforme a atividade efetivamente realizada, o contrato, a formação e as atribuições profissionais aplicáveis, o conteúdo do documento produzido e a legislação pertinente.

Um consultor que assina um documento técnico não está simplesmente transferindo sua responsabilidade para o cliente. A assinatura representa a participação profissional naquilo que foi efetivamente elaborado ou assumido dentro de sua competência.

Por isso, quanto mais relevante for o produto entregue, maior tende a ser a necessidade de delimitar claramente escopo, metodologia, fontes de informação, limitações e responsabilidades.
O especialista: quando o conhecimento precisa ser profundo

O especialista ocupa outra posição no universo profissional.

Ele é procurado quando uma questão exige conhecimento aprofundado em determinado campo, especialmente quando o problema apresenta elevado grau de complexidade, especificidade ou excepcionalidade.

Seus verbos de ação podem ser resumidos em aprofundar, avaliar, interpretar, validar e referendar, sempre respeitados os limites da competência profissional e do trabalho contratado.

Na área ambiental, podem existir especialistas em emissões e gases de efeito estufa, fauna, flora, recursos hídricos, contaminação de solos, geologia, toxicologia, geoprocessamento, recuperação de áreas degradadas, valoração de danos ambientais, entre diversas outras áreas.

Um especialista em fauna, por exemplo, pode ser chamado quando um empreendimento apresenta impactos potenciais sobre espécies ou habitats que exigem conhecimento específico. Da mesma forma, um profissional com extensa experiência em avaliação de danos ambientais pode ser contratado para analisar um caso complexo que ultrapasse a rotina de uma equipe convencional.

A principal característica do especialista, portanto, não é simplesmente o título que aparece em seu cartão de visita. É a profundidade e a experiência acumulada em determinado domínio do conhecimento.

Centenas ou milhares de horas de trabalho, participação em projetos complexos, produção técnica, pesquisa, experiência de campo e histórico de atuação podem contribuir para a construção dessa especialização.

É importante, entretanto, não confundir especialização com autorização automática para executar qualquer atividade.

Um profissional pode possuir enorme experiência em determinada área e, ainda assim, precisar observar limites formais de atribuição, registro profissional, habilitação ou responsabilidade técnica para determinadas atividades.

Da mesma forma, a expressão "notório saber" possui significado específico em determinados contextos institucionais e jurídicos e não deve ser utilizada simplesmente como sinônimo de "profissional experiente". Quando um edital, processo ou norma exige comprovação de qualificação específica, os requisitos precisam ser analisados de acordo com as regras aplicáveis.
Consultor e especialista podem ser a mesma pessoa?

Sim.

Um especialista pode ser contratado como consultor. Nesse caso, as duas características descrevem dimensões diferentes da atuação.

"Consultor" descreve principalmente a forma ou função da prestação do serviço.

"Especialista" descreve principalmente o nível de profundidade do conhecimento em determinada área.

Assim, um profissional pode atuar como consultor especializado em fauna, consultor especialista em gases de efeito estufa ou consultor especializado em avaliação de danos ambientais.

Da mesma maneira, um especialista pode integrar uma equipe interna e não atuar como consultor externo.

Essa distinção ajuda a evitar um erro comum: imaginar que os oito "chapéus" profissionais são cargos necessariamente separados. Na realidade, eles podem se sobrepor.

Um mesmo profissional pode ser, simultaneamente, especialista em determinado tema, consultor contratado por uma empresa e responsável técnico por uma atividade específica, desde que possua as condições profissionais e legais aplicáveis.
Onde está o risco?

O nível de exposição profissional não deve ser determinado apenas pelo nome da função.

Um consultor pode produzir um documento de grande relevância regulatória. Um especialista pode emitir uma avaliação que será utilizada para fundamentar uma decisão importante. Em ambos os casos, a qualidade técnica e os limites daquilo que foi efetivamente assumido são fundamentais.

Por isso, é mais adequado falar em risco associado à atividade e à responsabilidade assumida do que estabelecer uma classificação universal de risco simplesmente pelo título de "consultor" ou "especialista".

Quanto maior a influência de uma opinião técnica sobre decisões ambientais, regulatórias, econômicas ou judiciais, maior tende a ser a necessidade de rigor metodológico, rastreabilidade dos dados, clareza das limitações e compatibilidade entre a conclusão apresentada e a competência profissional do responsável.

No ambiente ambiental, a pergunta não deveria ser apenas "é consultor ou especialista?".

A pergunta mais importante é:

Qual problema foi contratado para resolver, qual produto entregou, qual competência possui e sobre o que exatamente está assumindo responsabilidade ao assinar?



Essa é a diferença entre simplesmente vender conhecimento e exercer uma atividade profissional com responsabilidade técnica.

Do Entulho ao Asfalto: O Hospital da UFRJ que Virou Rua Sustentável

Flávio Guerra Ferreira, Patricia dos Santos Matta e  J. Ribeiro de Almeida [ https:// x .com/dralmeidajr ][ in stagram .com/profalmeidajr/ ]...