sexta-feira, 7 de agosto de 2026

AIA precisa estar conectada ao território e à participação da sociedade

                                                         Dr. J.R. de Almeida

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes





Muitas vezes, a Avaliação de Impactos Ambientais (AIA) ainda é conduzida como um processo isolado, concentrado na análise de empreendimentos específicos e pouco articulado com os instrumentos mais amplos de planejamento territorial. Essa fragmentação reduz a capacidade de compreender a complexidade dos impactos ambientais e pode comprometer a qualidade das decisões tomadas durante o processo de licenciamento.

A avaliação de um empreendimento não deveria considerar apenas os impactos diretamente associados à sua implantação e operação. É fundamental compreender como essa atividade se relaciona com o plano de desenvolvimento regional, o ordenamento e o uso do solo, a gestão dos recursos hídricos, a conservação da biodiversidade, a infraestrutura existente e as características sociais e econômicas da região.

Sem essa integração, torna-se mais difícil identificar impactos cumulativos e sinérgicos. Um projeto que, isoladamente, apresenta impactos considerados controláveis pode produzir consequências muito mais significativas quando instalado em uma região que já enfrenta pressão sobre os recursos naturais, expansão urbana, escassez hídrica, desmatamento ou perda de habitats.

A ausência de diálogo entre os diferentes instrumentos de planejamento também pode gerar decisões contraditórias. Enquanto determinado plano territorial pode estabelecer prioridades para a conservação de uma área ou para a proteção de uma bacia hidrográfica, decisões tomadas posteriormente no âmbito do licenciamento podem não considerar adequadamente essas diretrizes. O resultado é um processo decisório fragmentado, no qual diferentes políticas públicas nem sempre caminham na mesma direção.

Outro ponto crítico é a participação social. As comunidades que vivem nos territórios diretamente afetados pelos empreendimentos ainda encontram limitações para participar de maneira efetiva dos processos de consulta e tomada de decisão. Em muitos casos, a participação ocorre de forma tardia, quando as principais alternativas do projeto já foram definidas, reduzindo a possibilidade de que as contribuições da população influenciem efetivamente o processo.

A participação da sociedade, entretanto, não deve ser compreendida apenas como uma etapa formal do licenciamento. Moradores, comunidades tradicionais, organizações sociais, pesquisadores e representantes locais possuem conhecimentos importantes sobre o território, incluindo alterações ambientais históricas, disponibilidade de água, características dos ecossistemas, áreas de risco e problemas sociais que podem não estar suficientemente representados nos estudos técnicos.

Ampliar essa participação significa também melhorar a qualidade das próprias avaliações ambientais. O conhecimento científico e técnico pode ser complementado pelo conhecimento produzido pela experiência cotidiana das populações que vivem no território. Essa combinação permite construir diagnósticos mais completos e identificar riscos que poderiam passar despercebidos em análises exclusivamente técnicas.

Para que isso aconteça, é necessário garantir informação acessível, transparência, linguagem compreensível e participação desde as primeiras etapas do planejamento. Não basta disponibilizar documentos técnicos complexos ou realizar consultas quando as decisões já estão praticamente definidas. A sociedade precisa ter condições reais de compreender os projetos, questionar seus impactos, apresentar alternativas e acompanhar os resultados posteriormente.

Uma AIA mais integrada e participativa pode, portanto, contribuir para decisões ambientais mais legítimas e tecnicamente qualificadas. A questão central não é apenas avaliar se determinado empreendimento pode ser licenciado, mas compreender onde, como, quando e em quais condições uma atividade pode ser desenvolvida sem comprometer a capacidade ambiental e social do território.



Nesse sentido, o futuro da Avaliação de Impactos Ambientais passa necessariamente pela integração entre ciência, planejamento territorial, políticas públicas e participação social. Quanto maior for essa articulação, maior será a capacidade da AIA de cumprir sua verdadeira função: antecipar riscos, orientar escolhas e construir um modelo de desenvolvimento compatível com a conservação ambiental e com as necessidades das populações.

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