terça-feira, 6 de outubro de 2026

Neurociência: por que o cérebro cria a sensação de que algumas pessoas têm mais sorte

                                                          Dr. J.R. de Almeida

[https://x.com/dralmeidajr][instagram.com/profalmeidajr/][ https://orcid.org/0000-0001-5993-0665][https://www.researchgate.net/profile/Josimar_Almeida/stats][https://uerj.academia.edu/ALMEIDA][https://scholar.google.com.br/citations?user=vZiq3MAAAAJ&hl=pt-BR&user=_vZiq3MAAAAJ]

                                                                                  Editora Priscila Gomes



A sorte parece, muitas vezes, uma força invisível capaz de favorecer algumas pessoas e ignorar outras. Há quem atribua a uma sequência de acontecimentos positivos uma espécie de destino favorável, enquanto interpreta uma sucessão de fracassos como sinal de azar. Do ponto de vista da neurociência e da psicologia cognitiva, porém, parte dessa percepção pode ser explicada pela maneira como o cérebro seleciona, interpreta e relaciona as informações disponíveis.

O cérebro humano não registra a realidade como uma câmera. Ele seleciona acontecimentos, atribui significado a experiências e procura padrões que ajudem a organizar um mundo marcado pela incerteza. Esse mecanismo é essencial para a sobrevivência, mas também pode produzir ilusões de sorte, controle e causalidade onde existe apenas coincidência.

Um dos mecanismos envolvidos é o viés de confirmação. A tendência faz com que informações que reforçam uma expectativa ou crença recebam maior atenção e sejam lembradas com mais facilidade. Uma pessoa que acredita ser especialmente sortuda, por exemplo, pode recordar durante anos o dia em que encontrou uma nota de R$ 100 na rua, ganhou um prêmio inesperado ou conseguiu uma oportunidade no momento certo. Ao mesmo tempo, centenas ou milhares de dias sem qualquer acontecimento extraordinário tendem a desaparecer da memória como experiências pouco relevantes.

Esse processo não significa que a lembrança seja falsa. O acontecimento realmente ocorreu. O problema está na forma como ele é selecionado e utilizado pelo cérebro para construir uma narrativa. Um episódio excepcional pode adquirir um peso desproporcional quando comparado a uma longa sequência de acontecimentos cotidianos que não confirmam a mesma hipótese.

Outro mecanismo importante é a ilusão de controle, fenômeno no qual as pessoas superestimam a própria capacidade de influenciar acontecimentos que, na realidade, são determinados predominantemente pelo acaso. Em situações imprevisíveis, o cérebro tende a procurar algum elemento que possa ser interpretado como causa.

É nesse contexto que surgem associações como acreditar que determinada roupa trouxe sorte em uma prova, que um ritual aumentou as chances de vitória ou que uma escolha aparentemente insignificante foi responsável por um resultado positivo. A camisa azul não altera necessariamente o desempenho de uma prova, assim como um determinado ritual não modifica as probabilidades de um evento aleatório. Ainda assim, quando duas situações acontecem próximas no tempo, o cérebro pode estabelecer entre elas uma relação causal.

A razão para essa tendência está relacionada à própria arquitetura cognitiva humana. Identificar relações entre acontecimentos foi, durante a evolução, uma habilidade extremamente útil. Reconhecer rapidamente que determinado sinal poderia indicar perigo ou que uma determinada ação poderia produzir uma consequência ajudava na tomada de decisões. O mesmo sistema que permite encontrar padrões reais, entretanto, também pode encontrar padrões onde eles não existem.

É aí que aparece outro fenômeno conhecido como apofenia, termo utilizado para descrever a tendência de perceber conexões significativas entre acontecimentos que não apresentam necessariamente uma relação causal. O fenômeno pode aparecer em situações simples do cotidiano, como enxergar rostos em tomadas, nuvens ou manchas, mas também pode participar da construção de explicações mais complexas para coincidências e acontecimentos aleatórios.

A percepção de padrões é tão poderosa que o cérebro pode transformar uma sequência de eventos independentes em uma história aparentemente coerente. Quando alguém joga uma moeda várias vezes e observa uma sequência incomum de caras ou coroas, por exemplo, pode ter a sensação de que existe uma lógica por trás da sequência. Estatisticamente, porém, resultados anteriores não precisam determinar o resultado seguinte quando os eventos são independentes.

Essa característica ajuda a explicar por que a sorte pode parecer uma propriedade pessoal. Ao observar apenas os resultados que se destacam, a mente constrói uma narrativa: determinada pessoa seria "sortuda", outra teria "azar" e uma terceira pareceria ter um talento especial para estar no lugar certo na hora certa.

A ciência, entretanto, faz uma distinção importante entre probabilidade, preparação e percepção. Uma pessoa não controla a probabilidade de ganhar na loteria, a ocorrência de um engarrafamento ou o surgimento inesperado de uma oportunidade profissional. Esses acontecimentos dependem de uma combinação de fatores que, em grande parte, estão fora do controle individual.

O que pode ser modificado é a prontidão para reconhecer e aproveitar uma oportunidade quando ela aparece.

Uma pessoa que conversa com mais gente pode aumentar o número de possibilidades de estabelecer uma conexão profissional. Quem tenta diferentes estratégias diante de um problema pode aumentar a probabilidade de encontrar uma solução. Quem analisa os próprios erros pode transformar uma experiência negativa em informação para uma tentativa futura. Nada disso significa controlar o acaso. Significa aumentar a capacidade de responder a ele.

Essa distinção é particularmente relevante porque acontecimentos classificados como "sorte" frequentemente resultam da interação entre circunstâncias externas e comportamento individual. Uma oportunidade pode surgir de maneira inesperada, mas apenas será aproveitada se alguém estiver preparado para reconhecê-la e agir.

A famosa associação entre sorte e preparação é frequentemente atribuída ao filósofo romano Sêneca, embora a formulação exata da frase popularmente conhecida como "sorte é o que acontece quando a preparação encontra a oportunidade" não possa ser tratada com segurança como uma citação literal de sua autoria. Ainda assim, a ideia permanece compatível com uma observação central da ciência comportamental: resultados inesperados não dependem apenas das circunstâncias, mas também de como as pessoas percebem e respondem às oportunidades.

Em uma interpretação contemporânea, a relação poderia ser resumida de maneira simples: sorte percebida = oportunidade × prontidão. A fórmula não representa uma equação científica literal, mas uma metáfora para distinguir aquilo que está fora do controle humano daquilo que pode ser desenvolvido.

A probabilidade pertence ao domínio do acaso. A prontidão pertence ao domínio do comportamento.

Essa perspectiva também modifica a maneira como o fracasso é interpretado. Uma tentativa que não produziu resultado não significa necessariamente falta de sorte. Da mesma forma, um sucesso inesperado não prova que determinada estratégia ou ritual tenha causado o resultado. Em ambos os casos, é necessário separar a coincidência da causalidade.

O cérebro continuará procurando padrões, porque essa é uma de suas características fundamentais. O objetivo da ciência não é eliminar essa tendência, mas compreender quando ela pode produzir interpretações equivocadas. Reconhecer os mecanismos envolvidos no viés de confirmação, na ilusão de controle e na apofenia permite observar a própria experiência com maior senso crítico.

No fim, a chamada "pessoa sortuda" pode não ser alguém favorecido por uma força misteriosa. Pode ser alguém que percebe mais oportunidades, permanece disponível para novas experiências, aprende com as tentativas anteriores e está preparado para agir quando uma circunstância favorável aparece.



O acaso continua existindo. O que muda é a capacidade de encontrá-lo preparado.



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