Plantas que “mineram” o solo: a agromineração desponta como alternativa sustentável para extração de metais
Dr. J.R. de Almeida
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Editora Priscila M. S.
Um grupo raro de plantas tem despertado crescente interesse da ciência e do setor mineral por sua capacidade singular de absorver metais em concentrações extremamente elevadas. Conhecidas como hiperacumuladoras de metais, essas espécies conseguem retirar do solo elementos como níquel, zinco, cobre, manganês, cobalto e cádmio em níveis centenas ou até milhares de vezes superiores aos observados em plantas comuns. Essa característica deu origem a uma estratégia inovadora chamada agromineração, que utiliza plantas como ferramentas biológicas para extrair metais de áreas contaminadas ou naturalmente ricas em minérios, alinhando-se aos princípios da economia circular.
Embora o reino vegetal seja vasto com estimativas entre 350 mil e 400 mil espécies catalogadas as hiperacumuladoras representam apenas cerca de 0,2% desse total. Ainda assim, seu potencial econômico e ambiental é significativo. Algumas espécies já são utilizadas comercialmente em países como Albânia, Malásia e Indonésia, com destaque para a Pycnandra acuminata, uma árvore capaz de acumular grandes quantidades de níquel em seus tecidos. Adaptadas a climas temperados e tropicais, essas plantas demonstram que a mineração pode assumir formas menos agressivas ao meio ambiente.
O Brasil desponta como um território promissor para o avanço da agromineração. Detentor da maior biodiversidade vegetal do planeta, o país reúne condições ecológicas favoráveis à descoberta de novas espécies hiperacumuladoras. A Amazônia, em especial, é apontada como uma das regiões com maior probabilidade de abrigar plantas com essas características, dada a diversidade de solos e a longa história evolutiva de adaptação das espécies locais a ambientes extremos.
Para que uma planta seja considerada ideal para a agromineração, ela precisa apresentar um conjunto de atributos específicos. Entre eles estão o alto poder de bioconcentração capacidade de reter metais em níveis semelhantes aos encontrados no solo, a eficiente translocação desses elementos para a parte aérea da planta, como caules e folhas, e elevada produção de biomassa. Após o cultivo, a biomassa é incinerada, e os metais são extraídos das cinzas. No caso do níquel, por exemplo, estima-se que uma espécie eficiente deva permitir a produção de cerca de 10 toneladas por hectare para viabilizar economicamente o processo.
Grande parte das plantas hiperacumuladoras está associada aos chamados solos ultramáficos, que ocupam entre 1% e 3% da superfície terrestre. Esses solos se originam de rochas ricas em metais como níquel, cromo e cobalto, mas são pobres em nutrientes essenciais ao crescimento vegetal, como nitrogênio, fósforo, potássio e cálcio. Além disso, apresentam uma relação desequilibrada entre magnésio e cálcio, com predominância do primeiro, o que inviabiliza a agricultura convencional. Nesse contexto, as plantas que conseguem sobreviver nesses ambientes são consideradas altamente especializadas do ponto de vista evolutivo.
Enquanto muitas espécies desenvolveram mecanismos para evitar a absorção de metais tóxicos, as hiperacumuladoras seguiram um caminho distinto. Ao longo de milhões de anos, elas evoluíram não apenas para tolerar esses elementos, mas para absorvê-los e armazená-los em altas concentrações. Para ser classificada como hiperacumuladora, uma planta deve ultrapassar limites bem definidos, como mais de 100 microgramas por grama de cádmio, 300 de cobalto, mil de níquel, 3 mil de zinco ou 10 mil de manganês em seus tecidos.
No Brasil, o avanço da pesquisa nessa área ganhou reforço com a criação do Instituto Nacional de Biotecnologias para o Setor Mineral (Inabim), sediado na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). O instituto tem como um de seus principais objetivos desenvolver soluções inovadoras para desafios nacionais, como a recuperação de áreas degradadas pela mineração, o reaproveitamento de resíduos minerais e a criação de novos materiais. A iniciativa reúne pesquisadores de diferentes instituições, incluindo a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp).
A agromineração surge, assim, como uma alternativa que combina ciência, biodiversidade e sustentabilidade. Ao transformar plantas em aliadas da extração mineral, essa abordagem aponta para um futuro em que a exploração de recursos naturais pode ser mais integrada aos processos ecológicos, reduzindo impactos ambientais e ampliando as possibilidades de uso responsável da riqueza biológica brasileira.

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